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“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS” APOCALIPSE – 2
“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS” APOCALIPSE – 2

“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”

Tradução de "Synopsis 0f the books 0f the Blíble - John Nelson Darby

APOCALIPSE – CAPÍTULO 2*

*Os comentários sobre Apocalipse 1 foram publicados no fascículo anterior.

Passemos agora às "coisas que são". As estrelas estão na mão de Cristo, e o Senhor fala delas em primeiro lugar; anda no meio das assembléias ou igrejas. Estas são as lâmpadas ou castiçais, quer dizer que eles representam as assembléias - ou a Igreja numa dada posição - e, como tal, vistas perante Deus. Não é aquilo em que o Igreja é a Seus olhos, preci­samente como Israel era o Seu povo, fosse qual fosse o estado dos Israelitas. As estrelas são o que Cristo vê como devendo dar a luz e como tendo autoridade, como sendo aquilo que Ele considera responsável perante Si, quanto a esse fim. Num certo sentido, são todos aqueles a Igreja e é assim que é dito muitas vezes nas cartas dirigidas às Igrejas, mas são-no mais especialmente aqueles que se encontram numa posição de responsabilidade, por causa da sua relação com Ele. "As sete estrelas que estão na Sua mão direita" deviam brilhar, ter influência, e representá-Lo, cada uma no seu lugar, durante a noite. Que o clero tem gradualmente tomado esse lugar, e que, nesse sentido, seja responsável, é absolutamente verdade; mas, perante o Senhor, ele responderá por si próprio. Todavia o Espírito não apresenta aqui a coisa desta maneira. O clero aspira a essa posição como a uma honra; deverá, portanto, a ela corresponder. Embora nunca, entre aqueles que o formam, alguém tenha sido chamado "anjo" , é precisamente essa a sua pretensão - e o nome que eles tomaram foi tirado desta passagem. Já se não pode duvidar de que os condutores, os anciãos ou outros personagens, supondo que eles o fossem realmente, não ocupassem um lugar especial de responsabilidade, como se vê no capítulo 20 de Atos; mas, na passagem de que agora nos ocupamos, o Espírito não os reconhece assim. Cristo não Se dirige a anciãos, nem a bispos, segundo a aceitação moderna desta palavra, porque, de fato, não existiam nesse tempo - e nem estas cartas encerram o pensamento de uma diocese1. Nas Sagradas Escrituras não se fala de anciãos como sendo autoridades; eram sempre vários, e a expressão "anjo" não pode aplicar-se a arranjos humanos existentes nesse tempo. O que é então o anjo? Propriamente dito, não é um símbolo. A estrela é um símbolo, e é vista aqui na mão de Cristo. O anjo é o representante místico de alguém que não está presentemente em cena. É assim que esta palavra é sempre empregada, quando não se trata, de uma maneira positiva, de um mensageiro celeste ou terrestre. Vemos isto nas expressões: O anjo do Eterno, os seus anjos (ao falar das criancinhas), o anjo de Pedro. Segundo a sua posição, os anciãos podem ter sido praticamente responsáveis; mas o anjo representa a assembléia, e, sobretudo, aqueles que Cristo tem sob o Seu olhar, quando contempla o estado da Igreja perante Si, por causa da sua proximidade e comunicação com Ele, ou por causa da sua responsabilidade de ser tal pela operação do Seu Espírito neles, para o Seu Serviço. Ninguém duvida de que a assembléia seja responsável, e, por conseguinte, o seu castiçal seja removido, quando ela se torna infiel, mas Cristo, pelo que concerne a esse estado de infidelidade, está em relação imediata com aqueles de que temos falado - pensamento solene para todos os que tomam a peito o bem da Igreja.

1) Exceto na América, aqueles que são chamados bispos são-no sempre de uma cidade. Isto mostra, historicamente, que as dioceses são um arranjo subseqüente. Os anjos já não são os principais oficiantes nas sinagogas.

A maneira como os anjos e as igrejas são identificados, e certas distinções no grau ou no modo como o são, requer mais alguns pormenores. Que, ao dirigir-se aos anjos, o Senhor fala às igrejas na sua responsabilidade geral é uma coisa evidente, porque nos é dito: "O que o Espírito diz às igrejas". Não se trata de uma comunicação particular feita a alguém que tem autoridade, a fim de o dirigir, como era o caso quando Paulo se dirigia a um Timóteo ou a um Tito, pois é às igrejas ou assembléias que o Espírito fala, e isto quer dizer que o anjo representa a responsabilidade delas. Encontramos isto claramente indicado nestas passagens: "O Diabo lançará alguns de vós na prisão"; "nada temas das coisas que há de padecer". E logo a seguir: "Mas umas poucas de coisas tenho contra ti: porque tens lá os que seguem a doutrina de Balaão ... "; "minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós". E mais à frente:

"Digo a vós, e aos restantes que estão em Tiatira, a saber, ao anjo da igreja de Tiatira". No entanto o anjo e a igreja são distintos: "Tirarei do seu lugar o teu castiçal"; "ToIeras Jezabel"...

Mas esta distinção entre o anjo e a igreja não se encontra nas três últimas igrejas. É ao anjo que tudo é dirigido. A Sardes é simplesmente dito que Cristo tem as sete estrelas, e não como a Éfeso, que Ele as tem na Sua mão direita. Nas cartas dirigidas a Smirna e a Filadélfia não há julgamento; os santos eram provados como fiéis, e Cristo encoraja-os. Quanto aos julgamentos, ou antes, quanto às ameaças dirigidas como advertências, no caso de Éfeso, que apresenta o fato geral do primeiro declínio da Igreja, é dito ao anjo que, se não se arrepender, o seu castiçal será tirado. A Igreja não se arrependeu; sabemo-lo pela Escritura e pelo próprio fato, e também considerando as sete igrejas como representando historicamente as sucessivas fases da Igreja. Em Pérgamo e em Tiatira são os que causam o mal que são especialmente julgados; no caso de Tiatira, devem abater-se· terríveis julgamentos sobre Jezabel e sobre aqueles que estão em relação com ela. Jezabel tivera muito tempo para se arrepender, mas não o tinha feito. Todavia, para mudar a ordem das coisas é preciso esperar a vinda do Senhor.

Depois de tudo o que acabamos de fazer notar, os anjos são moralmente os representantes da Igreja. A advertência de Cristo é dirigida àqueles a quem Ele confia esta posição, e poderemos facilmente compreender que tal é o caso para todo aquele que toma a peito o interesse da Igreja; mas, além disso, vemos que o anjo é identificado com a assembléia, quando se trata de todos aqueles que a constituem, enquanto que Julgamentos particulares são anunciados às partes culpadas.

Não podemos entrar agora no exame do que é dito mais particularmente a cada igreja, mas fá-lo-emos brevemente, em relação com o conjunto do livro, sem entrar em pormenores.

O primeiro grande fato é que a Igreja, neste mundo, está sujeita ao Julgamento, e, como luz ou castiçal neste mundo, a sua existência e a sua posição perante Deus podem ser inteiramente postas de lado; em segundo lugar, aprendemos que Deus o fará, se ela abandonar a sua primeira energia espiritual. É um princípio de um imenso alcance. Deus estabeleceu a Igreja para ser uma testemunha fiel do que Ele manifestou em Jesus e de que agora Jesus está no Céu. Se a Igreja o não fizer, é uma falsa testemunha e será posta de lado. Deus pode ter paciência com ela - e bem o tem demonstrado! Pode exortá­-la a voltar ao seu primeiro amor - e Ele o tem feito! Mas, se tal se não verificar, o seu castiçal tem de ser tirado, e a Igreja cessa de ser a lâmpada de Deus no mundo. O primeiro estado deve ser mantido; sem isso a glória de Deus é ofuscada e a verdade falseada, e, nesse caso, a criatura responsável deve ser posta de lado. Porém, nenhuma criatura, como tal considerada, pode, sem ser amparada, perseverar no seu primeiro estado. Ela falhará em tudo o que lhe for confiado, e tudo será julgado, exceto aquilo que estiver no Filho de Deus, o segundo Homem, ou por Ele é mantido. Bem tinha Éfeso perseverado na sua constância, mas já não tinha o necessário despren­dimento de si mesma nem o pensamento fixado unicamente em Cristo, que são os primeiros frutos da graça. Como fizemos notar, havia obras, trabalho e paciência, mas a fé, a esperança e o amor, na sua real energia, tinham desaparecido. Os efésios tinham rejeitado as pretensões dos falsos doutores, tinham suportado aflições e não se tinham cansado! Tudo o que Cristo pode dizer deles, para mostrar o seu amor, Ele o diz! Mostra que não os esquece, nem o bem que neles é manifestado, todavia, tinham perdido o seu primeiro amor, e, a não ser que se arrependessem e praticassem as primeiras obras, o Julgamento devia ser executado - "tirarei do seu lugar o teu castiçal".

Encontramos aqui um outro princípio muito importante:

Quando a assembléia se afastou da fidelidade, quando, coletivamente, deixou de ser a expressão do amor em que Deus visitou o mundo, Deus envia os indivíduos à Sua Palavra, que eles têm de aprender por eles mesmos: "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas". A Igreja é julgada, e, por isso, não pode constituir uma segurança para a fé; neste caso o indivíduo é chamado a escutar o que o Espírito diz. A advertência que aqui é dada, a saber, que o castiçal seria tirado do seu lugar, é particularmente digna de ser notada, porque havia muitas coisas que o Senhor aprovava, e que encorajava, mostrando-lhas; mas, apesar de tudo isso, o castiçal devia ser tirado, se o primeiro amor fosse abandonado.

Nesta epístola, o caráter de Cristo é geral, assim como a promessa feita ao vencedor, porque a igreja de Éfeso caracteriza todo o princípio sobre o qual a Igreja repousa. Cristo tem as sete estrelas na Sua mão direita e anda no meio dos castiçais de ouro; não é um caráter especial, aplicável a um estado particular, mas sim que exprime todo o alcance da Sua posição no meio das igrejas. Não é prometido nada à igreja, considerada como tendo abandonado. o seu primeiro amor. Não pode dirigir um crente, quando ela própria cai sob o golpe da repreensão e do Julgamento. A promessa é, pois, feita ao vencedor, como indivíduo - princípio este da mais alta importância. A promessa é geral, e esta em contraste com a ruína trazida sobre o homem por Adão; mas o que é prometido é mais excelente e mais elevado do que o bem de que Adão gozava e que perdeu. Aquele que vencer comerá da árvore da vida; não da árvore do paraíso do homem neste mundo, mas do Paraíso do próprio Deus! É preciso também notar que não se trata agora do primeiro Adão, que tinha de guardar, como indivíduo, o seu primeiro estado; atualmente, trata-se de vencer. E não é apenas o mundo e a sua hostilidade que temos de vencer, mas também o que se encontra na esfera da própria Igreja, uma vez que o convite é para escutar o que o Espírito diz às igrejas ou assembléias. É este convite que dá a ocasião de falar de vencer. Isto é algo de suma importância, considerando a pretensão assumida pela Igreja de ser ouvida como autoridade. A mensagem é dirigida à Igreja - e não por ela aos indivíduos! E é repreendida pela sua falta de fidelidade, enquanto que, individualmente, o santo é chamado para vencer.

A Palavra dirigida a Smima é curta. Fosse qual fosse a malícia e o poder de Satanás, o mais que ele podia fazer era, se lhe fosse permitido, exercer o poder da morte. Cristo é o primeiro e o último, tanto antes como depois da morte, porque Ele é o próprio Deus. Encontrou a morte, mas atravessou-a em poder; por isso os santos não tinham nada que temer. Satanás poderia agir, cirandá-los, lançá­-los na prisão. Que fossem fiéis até ao limite máximo das suas forças, ou seja, até à morte, e receberiam de Cristo a coroa da vida! Tribulação, pobreza, desprezo da parte daqueles que pretendiam ter um direito legítimo e hereditário a serem o povo de Deus - mas sempre perseguidores, quer fossem Judeus ou Cristãos - tudo isso constituía a parte da Igreja neste mundo - e Deus o permitia. Na realidade, era uma graça da Sua parte para com a Igreja no seu declínio. A esperança dos santos estava colocada muito acima de todas essas coisas, quando Cristo lhes prometia a coroa da vida. A Igreja que, pelo abandono do seu primeiro amor, deslizava ou estava ao ponto de deslizar para o mundo, devia compreender que o mundo estava nas mãos de Satanás e não constituía o descanso dos santos. Mas se, por um lado, o Senhor permitia a tribulação, por outro lado limitava-a. Tudo estava em Suas mãos. Não só tinha uma coroa para aqueles que sofriam, mas também a porção do vencedor estava assegurada; a segunda morte, a morte do Juízo, não poderia atingi-lo.

Em Pérgamo tornava-se necessário um julgamento mais direto. Cristo aparece como tendo uma espada agudo de dois fios, saindo da Sua boca. Notar-se-á que em Pérgamo, como em Smirna, a um estado especial se aplica também um caráter especial de Cristo. Não há nada de geral quanto à igreja. Em Éfeso, vemos Cristo na posição de Juiz, no meio dos castiçais, e a igreja ameaçada de ser retirada da sua posição de testemunha sobre a Terra. Em Tiatira, Cristo toma o Seu lugar como Filho de Deus, Filho na Sua própria Casa; e, como as coisas no tocante à igreja reverteram para pior, Ele é apresentado como tendo a perspicácia perfeita e a firmeza imutável para executar o Juízo. Em seguida é prometida ao vencedor a plena bênção do novo estado de coisas. Em Pérgamo, reencontramos nos santos a fidelidade que já tinha sido vista em Smirna - o Nome de Cristo e a fé mantidos firmemente, apesar da perseguição. Há uma certa diferença entre Pérgamos e Filadélfia: não nos é dito que Sua Palavra seja mantida firme, como sendo a da "paciência" de Cristo; a igreja, no estado em que se encontrava em Pérgamo, não o fazia, mas mantinha a confissão de Cristo no meio da perseguição. Mas um outro gênero de mal, diferente do que se encontrava e Éfeso, se tinha introduzido ali: O arrastamento para os caminhos do mundo, devido a um mau ensino. Era a doutrina de Balaão, trazendo com ela a idolatria. Havia também dentro da congregação algumas seitas que ensinavam práticas nefandas, sob o véu de uma pretendida santidade. Mas o Senhor julgará todas essas coisas.

Em Pérgamo, não era questão, como verdade geral, de tirar o castiçal do seu lugar, como era o caso, quando a congregação era chamada a guardar o seu primeiro amor; nem de julgamento inexorável, por a igreja se ter extraviado inteiramente, mas havia ali corruptores pelos quais os servos de Cristo estavam sendo arrastados para a idolatria e para o mal. A aprovação individual por Cristo, a comunhão com Ele próprio numa bênção ainda futura (mas já presente em espírito), comunhão com Ele, como tendo sido outrora humilhado e rejeitado (o que não sucedia à igreja); um nome dado por Cristo, um nome de ternura da Sua parte; uma união com Ele, somente conhecida por aquele que a possuía; num palavra, uma associação individual com Ele e uma bênção individual no gozo de uma felicidade secreta - tal era a promessa feita ao vencedor, quando a corrupção fazia progressos, embora ainda não reinasse na congregação.

Em Tiatira, a igreja vai até ao fim. No que Cristo reconhecia no meio do estado de coisas que caracteriza Tiatira, encontra-se uma dedicação crescente. Mas Jezabel era tolerada, e com ela, estando ela própria na igreja, a união com o mundo, a idolatria, e filhos por ela gerados - tudo devia ser julgado. Uma grande tribulação se abateria sobre Jezabel, e os seus filhos seriam mortos. Cristo sondava as mentes e os corações e aplicaria o Julgamento com rigorosa Justiça. Os fiéis dessa época, "vós", os "outros", como são designados aqueles aos quais Cristo Se dirige especialmente, não são senão um "resto", um Remanescente dedicado de uma maneira particular e crescente. O que está mais particularmente em vista, podemos notá-lo aqui, é o que são as igrejas para Cristo. A maneira como Jezabel atua para com os fiéis não é salientada. A vinda do Senhor é o tempo para o qual os olhares são dirigidos, e toda a bênção milenária é prometida ao que vencer: O Reino com Cristo, assim como o próprio Cristo, a Estrela da Manhã! A advertência: "Quem tem ouvidos ouça", é colocada, agora, após a promessa feita ao vencedor. Não é dada em relação com a igreja, mas sim com aqueles que, na congregação, vencerem. É isto o que caracteriza aquele estado. Tiatira pode ir até ao fim, mas não caracteriza o testemunho de Deus até ao fim, pois outros estados devem ser introduzidos nesse fim. Em Tiatira temos, sem dúvida, o papado na Idade Média, digamos até à Reforma; mas o próprio Romanismo vai até ao fim. O Juízo abatido sobre Jezabel é final. O Senhor deu-lhe tempo para se arrepender, mas ela não se arrependeu. Por isso será, forçosamente, associada com aqueles que seduziu, para a sua ruína comum. O Julgamento é aqui inteiramente caracterizado por uma penetração que sonda tudo de harmonia com a própria natureza e as exigências de Deus. A tribulação e o Julgamento têm um alcance particular, mas não a bênção; é a plena porção dos santos em tudo o que eles têm com Cristo, assim como a queda e o Julgamento são também completos, porque é o adultério e não somente o abandono do primeiro amor.

 

Vinte anos perdidos!