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"Estudos sobre a palavra de Deus” - I Joăo 4
"Estudos sobre a palavra de Deus” - I Joăo 4

“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”
Tradução de “Synopsis of the Books of the Bíble- John Nelson Darby

PRIMEIRA EPÍSTOLA DE S. JOÃO – CAPÍTULO 4

Ora, para nos servirmos desta última prova, era preciso tomarmos algumas precauções, porque muitos falsos profetas pretendiam e tinham mesmo já pretendido, no tempo do apóstolo, ter recebido comunicações do Espírito de Deus, e tinham-se insinuado entre os Cristãos. Era preciso, pois, pôr estes de sobreaviso, dando­-lhes os sinais certos do verdadeiro Espírito de Deus. O primeiro desses sinais era a confissão de Jesus, vindo em carne. Não bastava confessar que Ele veio, mas sim confessar que Ele veio dessa maneira. O segundo sinal era ..este: aquele que verdadeiramente conhecia a Deus, escutava os apóstolos. E é assim que as Epístolas dos apóstolos se tornam uma pedra-de-toque para aqueles que pretendem ensinar a Igreja. Toda a Palavra de Deus o é, sem dúvida alguma; mas limito­-me, aqui, ao que é dito nesta passagem. O ensino dos apóstolos é formalmente uma pedra-de­- toque para qualquer outro ensino- e, como ensino dos apóstolos, entendo o que eles próprios ensinaram imediatamente. Se alguém me diz que é preciso que outros o expliquem ou o desenvolvam, para terem a verdade e a certeza da fé, respondo: "Vós não sois de Deus, porque aquele que é de Deus escuta-os; e vós não quereis que eu os escute! E, seja qual for o vosso pretexto, impedis-me de os escutar". A negação de Jesus, vindo em carne, é o espírito do Anticristo. Não escutar os apóstolos é a forma provisória e preparatória do mal. Os verdadeiros Cristãos tinham vencido o espírito do erro, pelo Espírito de Deus, que permanecia neles (v.4).

Os três critérios do verdadeiro Cristianismo são agora distintamente estabelecidos aqui, e o apóstolo prossegue as suas exortações, desenvolvendo a plenitude e a intimidade das nossas relações com um Deus de amor; esta participação da natureza em que o amor é de Deus, e aquele que ama é nascido de Deus ­participa, pois, da Sua natureza e conhece-O (porque foi pela fé que O recebe) como participando da Sua natureza. Aquele que não ama, não conhece a Deus. É preciso possuirmos a natureza que ama, para sabermos o que é o amor. Aquele, pois, que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor. Uma tal pessoa não tem um sentimento em relação com a natureza de Deus. Como, pois, o conheceria ela? Não mais do que um animal poderia conhecer o espírito ou a inteligência de um homem, visto não os possuir.

Preste particular atenção, amado leitor, a esta imensa prerrogativa que decorre de toda a doutrina da Epístola. A vida eterna, que estava com o Pai, foi manifestada e foi-nos comunicada; assim, nós participamos da natureza divina. As afeições desta natureza, atuando em nós, assentam, pelo poder do Espírito Santo, no gozo da comunhão de Deus, que delas é a fonte; nós permanecemos nEle e Ele em nós. A primeira coisa é a verificação da verdade em nós. Os movimentos desta natureza demonstram que Ele permanece em nós - que, se nós amamos assim, o próprio Deus habita em nós. Aquele que faz agir este amor está em nós. Mas Ele é infinito, e o coração descansa nEle; sabemos que, ao mesmo tempo, permanecemos nEle e que Ele permanece em nós, porque Ele nos deu do Seu Espírito. Mas esta passagem, tão rica em bênção, exige que O sigamos com ordem:

Começa por verificar que o amor é de Deus. É a Sua natureza; Deus é a sua origem. Assim, aquele que ama é nascido de Deus, participa da Sua natureza. Além disso ele conhece a Deus, porque sabe o que é o amor, e que Deus é a sua plenitude. Esta é a doutrina que faz depender tudo da nossa participação na natureza divina.

Ora, isto podia ser transformado, por um lado, em misticismo, atraindo a nossa atenção sobre o nosso amor a Deus e sobre o amor em nós, sendo isto a natureza de Deus, como se nos fosse dito: O amor é Deus, e não DEUS É AMOR, e procurando sondar a natureza divina em nós próprios, ou, por outro lado, fazendo-nos duvidar porque não encontramos em nós, como quereríamos, os efeitos da natureza divina. Com efeito, aquele que não ama (porque a coisa, como sempre, em João, é expressa de uma maneira abstrata), não conhece a Deus, porque Deus é amor. A posse da natureza é necessária ao conheci­mento do que é está natureza, e ao conhecimento daquele que é a sua perfeição.

Mas, se eu procuro conhecê-la, e a ter ou a dar disso a prova, não é sobre a existência da. natureza em nós que o Espírito de Deus dirige os pensamentos dos crentes como seu objeto. Deus ­diz Ele - é amor; este amor foi manifestado para conosco no fato de Ele dar o Seu Unigênito Filho para que nós vivamos por Ele. A prova não é a vida em nós, mas sim que Deus deu o Seu Filho, a fim de que nós vivamos, e, além disso, para fazer propiciação pelos nossos pecados. Deus seja bendito! Nós conhecemos este amor, não nos pobres resultados da sua ação em nós, mas sim na sua perfeição em Deus, e isto mesmo na sua manifestação para conosco, o que está completamente fora de nós próprios. É um fato fora de nós, a manifestação deste perfeito amor. Gozamos dele, participando da natureza divina; conhecemo-la pelo dom infinito do Filho de Deus. É em Cristo que se encontram o exercício e a prova desse amor.

O inteiro alcance deste princípio e toda a força da sua verdade são verificados e demonstrados no que se segue. É impressionante ver, nesta Epístola, que se ocupa essencialmente da vida de Cristo e dos seus frutos em nós, como o Espírito Santo o prova e mostra o perfeito caráter do amor no que está completamente fora de nós. Poderá haver algo de mais perfeito do que a maneira como o amor de Deus nos é apresentado aqui, desde o momento em que se ocupa do nosso estado de pecado até que estejamos perante o tribunal de Deus? Deus pensou em tudo! Amor para conosco, como pecadores (v. 9-10); em nós, como santos (v.12); conosco, como perfeitos na nossa condição, tendo em visto o dia do Juízo (v.17). Nos primeiros versículos, o amor de Deus é manifestado no dom de Cristo; em primeiro lugar, para nos dar a vida - nós estávamos mortos; em segundo lugar, para fazer propiciação ­nós éramos culpados. Isto compreende todo o nosso estado. No segundos destes versículos, o grande princípio da graça, que é o amor, onde e como ele é conhecido, este princípio é claramente estabelecido em palavras de uma importância imensa quanto à própria natureza no Cristianismo. Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus (o que era o princípio da lei), mas sim em que Ele nos amou, e deu o Seu Filho para fazer a propiciação pelos nossos pecados. É, pois, aqui que nós aprendemos que é o amor. Ele era perfeito em Deus, quando nós O não amávamos; perfeito nEle, naquilo em que Ele O exerceu para conosco, quando estávamos nos nossos pecados, e Ele enviou o Seu Filho para fazer a propiciação por eles. O apóstolo afirma, pois, positivamente, que aquele que não ama, não conhece a Deus. A pretensão de possuir este amor é julgada por este meio; mas para conhecer o amor não é preciso procurá-lo em si, e sim vê-lo manifestado em Deus, quando nós o não tínhamos. Ele dá a vida que ama, e fez a propiciação pelos nossos pecados.

Agora, pelo que concerne ao gozo e aos privilégios deste amor: Se Deus nos amou tanto (é esta a base sobre a qual ele se coloca), nós deveríamos amar-nos uns aos outros.

Ninguém viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós. A sua presença, Ele próprio habitando em nós, se eleva na excelência da Sua natureza acima de todas as barreiras das circunstâncias, e liga­-nos àqueles que são Seus. É Deus no poder da Sua natureza, a qual é a fonte dos pensamentos e dos sentimentos, e ela própria se manifesta no meio daqueles em quem se encontra. Pode-se conceber isto: Como pode ser que eu ame estrangeiros de outros países, pessoas com hábitos muito diferentes dos meus, pessoas que eu nunca conheci, de uma maneira mais íntima que a minha própria família segundo a carne? Como pode ser que eu tenha com eles pensamentos em comum, objetos infinitamente amados em comum, afeições poderosamente comprometidas, um laço mais forte com pessoas que eu nunca vi do que com os companheiros, aliás queridos, da minha infância? É porque há neles e em mim uma fonte de pensamentos e de afeições que não é humana. Deus está ali. Deus permanece em nós. Que felicidade! Que laço! Não se comunica o próprio Deus à alma? Não a torna Ele consciente da Sua presença em amor? Certamente que sim. E, se Ele é assim, em nós, a fonte bendita dos nossos pensamentos, pode haver temor ou distância, ou incerteza a respeito do que Ele é? Não, nenhuma. O Seu amor é perfeito em nós. Nós conhecemo­-Lo como Amor nas nossas almas. É o segundo grande ponto nesta notável passagem, o gozo do amor divino nas nossas almas.

O apóstolo ainda não disse:

"Nisto conhecemos que permanecemos nele". Vai dizê-lo agora. Mas, se o amor dos irmãos está em nós, Deus permanece em nós. Quando este amor está em atividade, há a consciência da presença de Deus como perfeito amor em nós. O amor enche o coração e assim se exerce em nós. Ora esta consciência é o efeito da presença do Seu Espírito como fonte e poder de vida e de natureza em nós. Ele deu-nos, não "o Seu Espírito" - prova de que Ele permanece em nós ­mas sim "do Seu Espírito"; participamos, pela Sua presença em nós, dos afetos divinos pelo Espírito, e assim sabemos não só que Ele permanece em nós, mas a presença do Seu Espírito, atuando numa natureza que é a de Deus em nós, dá-nos a consciência de que nós permanecemos nEle, porque Ele é a infinidade e a perfeição do que está agora em nós.

O coração descansa e goza da presença do Senhor, estando oculto para tudo o que estiver fora dEle, na consciência do amor perfeito em que nos encontramos a nós próprios (permanecendo nEle). O Espírito faz-nos permanecer em Deus e dá-nos assim o conhecimento de que Ele permanece em nós. Assim, no gosto e na consciência do amor que ali se encontra podemos dar testemunho ao que foi manifestado para além de todos os limites judaicos, isto é, que o Pai enviou o Filho para ser o Salvador do mundo. Mais à frente veremos um outro caráter.

Comparando o versículo 12, do capítulo 4, como versículo 18, do capítulo 1 do Evangelho segundo S. João, apreenderemos melhor o alcance deste ensinamento do apóstolo. A mesma dificuldade, ou, se quisermos, a mesma verdade se apresenta nos dois casos. Ninguém jamais viu a Deus. Como é resolvida esta dificuldade? Em João 1: 18, o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, O fez conhecer. Aquele que está1 na mais perfeita intimidade, na proximidade e no gozo mas absolutos do amor do Pai, o único objeto eterno e suficiente que conheceu o amor do Pai, como Filho Unigênito, O revelou aos homens, como Ele mesmo o conheceu. Qual é a resposta a esta mesma dificuldade nesta Epístola? "Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e em nós é perfeito o Seu amor". Pela comunicação da natureza divina e pela permanência de Deus em nós, gozamos dEle interiormente, tal como foi manifestado e declarado por Seu Filho Unigênito. O Seu amor é perfeito em nós, conhecido no coração, como foi declarado em Jesus. O Deus que foi declarado por Ele permanece em nós. Que pensamento este, que é a resposta ao fato de nunca ninguém ter visto a Deus, e, de igual modo - o Filho Unigênito o declarou - que Ele permanece em nós! Que luz isto deita sobre as palavras: "Que é verdadeiro nele e em VÓS!"² (capítulo 2:8). Porque é no fato de Cristo Se ter tornado a nossa vida que nós podemos gozar assim de Deus e da Sua presença em nós pelo poder do Espírito Santo. Vimos que o testemunho do v.14 decorre desse fato.

1) Note-se que não é "estava". Não é nunca dito na Escritura, como, por vezes, se pensa: Ele deixou o seio do Pai; mas sim "o Filho unigênito, que está no seio do Pai". Como Ele conhece a Deus, assim O revela sobre a Terra.

Encontramos também a distinção entre Deus permanecendo em nós, e nós em Deus, naquilo que Cristo diz de Si próprio. Ele permanecia sempre no Pai, e o Pai nEle; mas diz: "O Pai, que está em mim, é quem faz as obras" (João 14: 10). Pela Sua palavra, os discípulos deveriam ter crido em ambos; mas no que tinham visto - nas Suas obras ­tinham tido antes a prova de que o Pai permanecia nEle. Quem O tinha visto, tinha visto o Pai. Mas, quando o Consolador fosse enviado, então conheceriam que Jesus estava no Pai - que era divinamente UM com o Pai.

O apóstolo não diz que nós estamos em Deus3, nem que estamos no Pai, mas sim que permanecemos nEle, e que o sabemos, porque Ele nos deu do Seu Espírito. Já fizemos notar (capítulo 3:24) o que diz o apóstolo: "Nisto conhecemos que Ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu". E aqui, acrescenta: Sabemos que permanecemos em Deus, porque é - não a manifestação como prova, mas - a comunhão com o próprio Deus. Sabemos que permanecemos nEle, sempre, como uma verdade preciosa, - como um fato imutável, sensivelmente, quando o Seu amor está ativo no coração. É a esta atividade que o apóstolo, por conseguinte, chega imediata­mente, acrescentando: "E vimos, e testificamos que o Pai enviou Seu Filho para ser o Salvador do mundo" (v.14). Era, para todos, a prova desse amor, de que o apóstolo - assim como todos os crentes - gozava no seu coração. É importante notar a maneira como esta passagem nos apresenta, em primeiro lugar, o fato de que Deus permanece em nós; em segundo lugar, o efeito, a saber, que (sendo Deus infinito) nós permanecemos nEle; e, em terceiro lugar, a realização da primeira verdade na realidade da vida de que temos consciência.

2) Isto dá-nos igualmente, no seu mais elevado caráter e no seu mais elevado objeto, a diferença entre o Evangelho e a Epistola.
3) A única expressão que, na Palavra de Deus, tem alguma semelhança com isto encontra-se em: "A igreja dos Tessalonicenses, em Deus, o Pai .. ". Esta expressão aplica-se aqui a uma corporação, numerosa e tem sentido muito diferente.

Podemos notar aqui, que enquanto a permanência de Deus em nós é um fato doutrinal e verdade de todo o verdadeiro Cristão, a nossa permanência em Deus, embora compreendida nesse fato, está em relação com o nosso estado. Por isso, no capítulo 3:24, temos: "Aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele"; e no capítulo 4:16:

"Aquele que permanece no amor, permanece em Deus, e Deus nele".

O amor mútuo é realmente considerado como prova de que Deus está lá, e que o Seu amor é realizado em nós - e eis um contraste entre a maneira da sua presença e a de Cristo (João 1:18). Mas o que nós conhecemos é que permanecemos nEle e Ele em nós. Em todo o caso, este conhecimento vem-nos pelo Espírito. O v.15 apresenta o fato universal; o v.16 fá-lo remontar plenamente à sua origem. Nós temos conhecido e crido o amor que Deus tem por nós. Ali, a sua natureza é declarada em si mesma (porque nós nos regozijamos em Deus); Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus, e Deus nele. Não há outro em parte alguma. Se participarmos da Sua natureza, participamos do amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus, que dele é a plenitude. Mas note-se que, insistindo no que Ele é, o apóstolo insiste cuidadosamente na sua própria pessoa: Ele permanece em nós.

E, aqui, é introduzido um princípio da máxima importância. Estaríamos dispostos, talvez, a dizer que esta permanência de Deus em nós e a nossa permanência nEle dependem de uma elevada medida de espiritualidade, tendo o apóstolo falado, com efeito, da maior alegria possível. Ora, embora o grau segundo o qual nós realizamos a coisa de uma maneira inteligente seja, com efeito, uma tarefa de espiritualidade, a coisa em si mesma é a parte de todo o Cristão. É a nossa posição, porque Cristo é a nossa vida e porque o Espírito Santo nos é dado. "Qualquer que confessar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus" (v. 15). Como é grande a graça do Evangelho! Como é grande a graça do Evangelho! Como é admirável a nossa posição, porque é em Jesus que a possuímos! E importante reter bem isto, que é a posição de todo o Cristão: a alegria dos humildes é a mais forte censura dirigida à consciência dos indiferentes.

O apóstolo explica esta alta posição pela posse da natureza divina, - condição essencial do Cristianismo. Um Cristão é alguém que participa da natureza divina, e em quem permanece o Espírito Santo. Mas o conhecimento da nossa posição não decorre da consideração desta verdade, embora dependa do fato de esta consideração ser verdadeira, mas sim do próprio amor de Deus, como já vimos "E - diz o apóstolo, continuando ­nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem". Está aqui a fonte do nosso conhecimento e do nosso gozo desses privilégios tão doces, tão maravilhosamente elevados, mas ao mesmo tempo tão simples, tão verdadeiros para o coração, quando são conhecidos.

Nós temos conhecido o amor que Deus nos tem, e temos acreditado nele. Que precioso conhecimento! Possuindo-o, conhecemos a Deus, porque foi assim que Ele próprio se manifestou. Podemos, pois, dizer:

"Deus é amor"; e não há outro! Ele mesmo é Amor! Ele é amor em toda a sua plenitude. Ele não é a santidade, Ele é Santo; Ele não é a justiça, Ele é Justo; mas ELE É AMOR !!!. Permanecendo, pois, no amor, eu permaneço nEle, o que não poderia ser, se Ele não permanecesse em mim! Mas Ele permanece.

Aqui, o apóstolo diz primeiramente que nós permanecemos nEle, porque é o próprio Deus que está perante o nosso olhar como sendo o amor em que nós permanecemos.

4) A Justiça e a Santidade supõem uma relação com outros seres: Reconhecer a mal, rejeitá­-l0 e julgá-la. O amor, embora exercido para com outros, é o que Deus é em Si mesmo. O outro nome essencial de Deus é "Luz". É-nos dito que nós somos "luz no Senhor", como participantes da natureza divina; mas não amor, porque, embora de natureza divina, só Ele é soberano em graça. Não podemos, pois, dizer que nós somos amor (ver Efésios 4:5).

Assim pensando nesse amor, eu digo que permaneço nEle, porque tenho a consciência disso no meu coração pelo Espírito Santo. Mas, ao mesmo tempo, este amor é em nós um princípio ativo e enérgico; é o próprio Deus que está ali. Esta é a alegria da nossa posição - a posição de todo o Cristão.

Os versículos 14 e 16 apresentam-nos o duplo efeito da manifestação deste amor:

Primeiro - o testemunho de que o Pai enviou o Filho para ser o Salvador do mundo. Inteiramente fora das promessas feitas aos Judeus (como em todos os escritos de João), esta obra é o fruto do que o próprio Deus é. Conseqüentemente, todo aquele que confessar Jesus como sendo esse Filho, goza de toda a plenitude das benditas consequências que daí decorrem.

Segundo - o Cristão creu nesse amor por si, e dele goza conforme a sua plenitude. Há apenas esta modificação de expressão do glorioso fato da nossa porção: A confissão de Jesus, como Filho de Deus, é aqui, em primeiro lugar, a prova de que Deus permanece em nós, embora a outra parte da verdade diga igualmente que aquele que O confessa permanece também em Deus.

Quando se trata da nossa porção em comunhão, como crentes nesse amor, é-nos dito que aquele que permanece no amor, permanece em Deus, porque é ali, com efeito que o coração se encontra. Mas o outro lado da verdade é de igual modo verdadeiro: Deus permanece também nele (v.16).

Falei da consciência desta permanência em Deus, porque é assim somente que o tema é conhecimento. Mas é importante recordar que o apóstolo o ensina como sendo uma verdade que se aplica a todos os fiéis. Estes teriam podido escusar-se de se aproximarem dessas declarações, sob o pretexto de que elas eram demasiado elevadas para eles; mas este fato julgaria essa escusa. Esta comunhão seria negligenciada. Mas Deus permanece em todo aquele que confessa que Jesus é o Filho de Deus, e ele permanece em Deus. Que encorajamento para um Cristão tímido! E que censura para um indiferente!. ..

O apóstolo volta à nossa posição relativa, considerando Deus como fora de nós, como aquele perante quem devemos comparecer e com quem temos sempre relações. Esta é a terceira grande prova e o terceiro caráter deste amor, caráter no qual este amor é perfeito, testemunhando, como disse já, que Deus pensou em tudo para nós, desde o nosso estado de pecado até ao dia do Juízo.

Nisto é consumado o Seu amor por nós (a fim de que tenhamos toda a segurança no dia do Juízo), a saber, que, como Ele é, somos nós, também, neste mundo (v. 17). Com efeito, o que é que poderia dar-nos uma segurança maios completa, para esse dia, do que sermos como o próprio Senhor Jesus - como o Juiz? Ele, que julgará com Justiça, é a nossa Justiça! Nós somos, nEle, a Justiça segundo a qual Ele julgará. Nós somos, relativamente ao Julgamento, tal como Ele é. E é bem isto o que pode dar-nos uma paz perfeita. Mas note-se que não é só no dia do Juízo que é assim (isto dá-nos a segurança para o julgamento); nós já o somos neste mundo. Não nos é dito: Como Ele era, mas sim como Ele é. Mesmo neste mundo, nós somos já como Ele é, e temos já o nosso lugar conhecimento e assegurado, de harmonia com a natureza e os desígnios de Deus para esse dia. É a nossa parte como sendo identificados de uma maneira viva com Ele.

Ora, no amor não há temor; há confiança. Se estou certo de que alguém me ama, não temo essa pessoa. Mas se desejo somente ser o objeto da sua afeição, posso recear não o ser, ou mesmo temer essa pessoa. Todavia, esse temor tenderia sempre a destruir o meu amor por ela e a destruir o meu amor para com ela, e o meu desejo de ser o objeto da sua afeição. Verifica-se uma grande incompatibilidade entre estes dois afetos - no amor não há temor. a perfeito amor lança fora o temor, porque o temor nos atormenta, e o tormento não pode ser o gozo do amor. Portanto, aquele que teme não conhece o perfeito amor. E o que é que o apóstolo entende por "perfeito amor"? É o que Deus é, e o que Ele mostrou plenamente em Cristo; é o que Ele nos fez conhecer e de que nos faz gozar pela Sua presença em nós - de sorte que nós também permanecemos nEle. A prova positiva da total perfeição deste amor é que nós somos tal como Cristo é. Ele é manifestado em nós, realizado em nós, e aperfeiçoado em nós. Mas o objeto, de que nós gozamos, é Deus, que é amor; mas nós gozamos dEle porque Ele está em nós, de modo que o amor e a confiança estão nos nossos corações, e nós temos descanso. a que eu conheço de Deus é que Ele é amor, e amor para comigo, e nada mais do que amor para comigo, porque é Ele mesmo que o é. E por isso que não há temor em mim5.

Se entrarmos praticamente na parte histórica dessas afeições, por assim dizer; se quisermos separar o que está unido em santo gozo, porque a natureza divina em nós, que é amor, goza do amor na sua perfeição em Deus (o Seu amor derramado nos corações pela Sua presença); se' quisermos especificar a relação em que os nossos corações se encontram com Deus, a este respeito, eis o que lemos: "Nós o amamos a ele, porque ele nos amou primeiro". É a graça; e é preciso que seja a graça, porque é Deus que deve ser glorificado.

Agora, vale a pena prestar atenção à ordem desta notável passagem. Versículos 7-10: Nós possuímos a natureza de Deus; por conseqüência, nós amamos. Somos nascidos dEle e conhecemo-Lo. Mas a manifestação do amor para conosco em Cristo Jesus é a prova desse amor. É assim que nós conhecemos o amor.

Versículos 11-16: Nós gozamos do amor, permanecendo no Senhor. É a vida presente no amor de Deus, pela presença do Seu Santo Espírito em nós; é o gozo deste amor, pela comunhão, em que Deus permanece em nós, e que assim nós permanecemos nEle.

Versículo 17: O Seu amor é consumado conosco; é a perfeição desse amor considerado no lugar que Ele nos deu, em vista do Juízo. Nós somos, neste mundo, tal como Cristo é.

Versículos 18-19: O amor é assim plenamente consumado conosco. O amor pelos pecadores, a comunhão, a perfeição perante Deus, dão-nos os elementos morais e característicos deste amor - o que está nas nossas relações com Deus.

Na primeira passagem, v.7­,10, onde se trata da manifestação deste amor, o apóstolo não vai além do fato de que aquele que ama é nascido de Deus. A natureza de Deus (que é Amor) estando em nós, aquele que ama conhece a Deus, porque é nascido de Deus - tem a Sua natureza e sabe o que ela é.

5) É impressionante ver que o apóstolo não diz: Nós devemos amá-Lo, porque Ele nos amou primeiro; mas sim" nós O amamos". Não podemos conhecer o Seu amor por nós e dele gozar sem amarmos. O sentimento do amor para conosco é sempre o amor. Ele não pode ser conhecido e apreciado se ali não existir. O sentimento que eu tenho do amor noutra pessoa, é o amor por ela. Mas devemos amar os irmãos, porque não é o seu amor por nós que é a fonte do amor, embora pudesse sustentá-lo dessa maneira. Mas nós amamos a Deus, porque Ele nos amou primeiro.

É o que Deus tem sido para o pecador que demonstra a Sua natureza de amor. Em seguida, o que temos aprendido como pecadores, disso gozamos como santos. O perfeito amor de Deus é derramado nos corações, e permanecemos nEle. Estando já com Jesus neste mundo e sendo tais como Ele é, o temor não tem lugar naquele para quem o amor' de Deus constitui uma residência e um lugar de descanso.

Versículo 20: A realidade do nosso amor por Deus, fruto do Seu amor por nós, é posta à prova. Se dissermos que amamos a Deus, mas que não amamos os irmãos, somos mentirosos, porque, se a natureza divina, tão perto de nós (nos irmãos), e o valor de Cristo, para eles, não despertam em nós afeições espirituais, como o faria Aquele que está longe? Por isso nos é apresentado aqui o Seu mandamento: "Quem ama a Deus, ame, também, o seu irmão". A obediência é-nos também aqui apresentada. (Comparar João 14:31).

 

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