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“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS” - II PEDRO 1
“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS” - II PEDRO 1

“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”

Tradução de ”Synopsis of the Books of the Bible – Jonh Nelson Darby

Segunda Epístola de S. Pedro – Capítulo 1

A Segunda Epístola de S. Pedro é ainda mais simples do que a primeira. Tal como as de Judas e de João é escrita tendo essencialmente em vista os sedutores que, com belas promessas de liberdade, arrasta­vam as almas para o pecado e para a devassidão, negando a vinda de Cristo, e, de fato, renegando todos os Seus direitos sobre eles. A Epístola adverte os mesmos Cristãos a quem a primeira fora dirigida, assina­lando os traços característicos desses falsos doutores, denun­ciando-os da maneira mais enérgica, explicando a longa paciência de Deus e anunciando um Juízo que, como o demonstra a Sua paciência, conviria à Majestade de Quem devia executá-lo.

Mas, antes de fazer essas advertências, que começam com o segundo capítulo, o apóstolo exorta os Cristãos a consolidarem a sua própria chamada e a sua eleição - não, evidentemente, no coração de Deus, mas sim nos seus próprios corações e na sua vida prática, andando de maneira a não tropeçarem; de modo que o testemunho da parte que eles tinham em Cristo fosse sempre muito claro e que uma plena entrada lhes fosse proporcionada.

Essas exortações são fundadas: Primeiro, sobre aquilo que já foi dado aos Cristãos; segundo, sobre o que está para vir, a saber, a manifestação da glória do reino. Ao abordar este último ponto, Pedro indica uma parte ainda mais excelente - a brilhante Estrela da manhã, o próprio Cristo celestial e a nossa associação com Ele, antes de Ele aparecer como Sol de Justiça. Terceiro, veremos que as exortações são fundadas também sobre uma outra base, a saber, a dissolução dos céus e da Terra, demonstrando assim a instabilidade de tudo aquilo sobre o que a incredulidade se fundava e dando, pela mesma razão, uma solene advertência aos santos, para os convencer a andaram em santidade.

O apóstolo designa os seus irmãos como sendo aqueles que tinham recebido em quinhão a mesma preciosa fé que ele tinha, pela fidelidade de Deus¹ às promessas feitas aos pais, porque está certamente aqui a força da palavra "Justiça". A fidelidade do Deus de Israel tinha dado ao Seu povo esta fé (isto é, o Cristianismo) que lhes era tão preciosa.

A fé é, aqui, a parte que nós temos agora nas coisas que Deus dá, reveladas como verdades no Cristianismo, enquanto as coisas prometidas não chegarem. Era desta maneira que os Judeus crentes deviam possuir o Messias e tudo o que Deus dava nEle, como disse o Senhor: "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede, também, em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas ... vou preparar­vos lugar". Quer dizer: "Vós não possuís Deus visivelmente; gozais dEle crendo nEle. E o mesmo se dá quanto a mim: Não me possuís corporalmente, mas gozareis de tudo o que está em mim - a Justiça e todas as promessas de Deus - crendo". Era assim que esses Judeus crentes, aos quais Pedro escrevia, possuíam o Senhor; eles tinham recebido esta preciosa fé.

Pedro deseja-Ihes, como sempre, "graça e paz ", acrescen­tando: "Pelo conhecimento de Deus, e de Jesus, nosso Senhor!" . O conhecimento de Deus e de Jesus é o centro e o sustentáculo da fé , o que a alimenta; ela desenvolve-se e cresce divinamente neste conhecimento que a protege também dos vãos pensamentos dos sedutores. Mas há um poder vivo neste conheci­mento - um poder divino naquilo que Deus é para os fiéis - como é revelado à fé; e este poder divino deu-nos tudo o que diz respeito à vida e à piedade. Pelo conhecimento realizador que possuímos dAquele que nos chamou, esse poder divino tomas­se útil e eficaz para tudo o que pertence à vida e à piedade - "o conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude" .

1) Podemos traduzir: "Do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo", e talvez se deva traduzir assim, visto tratar-se da fidelidade de Deus às Suas promessas. A Epístola aos hebreus insiste também em que Jesus é Jeová.

Assim, encontramos aqui o chamamento de Deus, convidando-nos a prosseguir a glória como nosso alvo, alcançando pela virtude - a coragem espiritual - a vitória sobre todos os inimigos que encontramos no nosso caminho. Não é uma lei dada a um povo já congregado, mas a glória proposta para que a alcancemos pela energia espiritual. Além disso, temos o poder divino, atuando, segundo a sua própria eficácia, para a vida de Deus em nós, e para a piedade.

Como é precioso saber que a fé pode dispor deste poder divino, realizado na vida da alma e dirigindo-a para a glória como alvo! Que salvaguarda contra os esforços do inimigo, se estamos verdadeiramente estabelecidos na consciência deste poder divino, operando em graça em nosso favor! O coração é levado a fazer da glória o seu objeto; e a virtude, a força da vida espiritual, desenvolve-se no caminho que ali conduz. O poder divino deu­ nos tudo o que é necessário.

Ora, em relação com estas duas coisas - a saber, a glória e a energia da vida - grandes e preciosas promessas nos são feitas; porque todas as promessas em Cristo se desenvolvem quer na glória quer na vida que a ela conduz. Por meio dessas promessas, participamos na natureza divina; porque este poder divino, que se realiza na vida e na piedade, diz respeito a essas grandes e preciosas promessas que se referem ou à glória ou à virtude na vida que ali conduz - quer dizer que é o poder divino que se desenvolve, realizando a glória e o curso celestial que a caracteriza na sua natureza. Nós somos assim feitos moralmente participantes da natureza divina pelo poder divino atuando em nós e fixando a alma sobre o que é divinamente revelado. Preciosa verdade! Privilégio tão elevado, que nos toma capazes de gozarmos do próprio Deus, ao mesmo tempo que de todo o bem!...

Pela mesma ação deste poder divino, escapamos à corrupção que há no mundo, pela cobiça; porque o poder divino nos livra dela. Não só não sucumbimos, como também somos ocupados com outras coisas, e a ação do Inimigo sobre a carne é afastada. Os desejos, dos quais não sabíamos purificar-nos, são retirados; cessa a viciosa relação do coração com o seu objeto. É uma verdadeira libertação. Somos donos de nós próprios a tal respeito; estamos livres do pecado.

Ora, não basta ter escapado pela fé ao próprio império interior dos desejos da carne; é preciso ainda acrescentar à fé - a esta fé que realiza o poder divino e a glória de Cristo que vai ser revelada - a virtude. É a primeira coisa. É,como dissemos, a coragem moral que ultrapassa as dificuldades e governa o coração, refreando todo o movimento da vida natural. É uma energia pela qual o coração é dono de si próprio e sabe escolher o bem e rejeitar o mal como uma coisa venci da e indigna de si próprio. É mesmo a graça, mas aqui o apóstolo fala do próprio fato, como é realizado no coração, e não da sua origem. Eu disse que é a primeira coisa, porque, na prática, este governo de si mesmo - esta virtude, esta energia moral - é a libertação do mal, e torna possível a comunicação com Deus. É a única coisa que dá realidade a todo o resto, porque, sem a virtude, nós não estamos realmente com Deus. Poderia o poder divino manifestar-se no relaxamento da carne? E se nós não estamos realmente com Deus - se a nova natureza não está em atividade o conhecimento que possuímos não é senão vaidade da carne; a paciência uma qualidade natural ou de hipocrisia, e assim para todo o mais. Mas quando a virtude existe, é muito precioso acrescentar-lhe o conhecimento. Temos então a sabedoria e a inteligência divinas para dirigirem a nossa maneira de ser. O coração é engrandecido, santificado, espiritualmente desenvolvido por um conhecimento de Deus mais completo e mais profundo, que atua no coração e se reflete no comportamento. Somos guarda­dos de muitos erros; somos mais humildes, mais sóbrios. Sabemos melhor onde está o nosso tesouro - e o que ele é. Sabemos que todo o resto não é senão vaidade e entrave. Trata-se, pois, aqui, do verdadeiro conhecimento de Deus.

Para aquele que anda assim no conhecimento de Deus, a carne, a vontade, os desejos são esmagados e inteiramente diminuídos na sua força prática, e desaparecem como hábitos do coração; não os alimentamos. Somos moderados, reprimimo-nos, não nos deixamos levar pelos nossos desejos; a temperança junta-se ao conheci­mento. O apóstolo não fala do andamento do Cristão, mas sim do estado do seu coração nessa marcha. Assim governados, e a vontade refreada, suportamos os outros com paciência; e as circunstâncias pelas quais é preciso passar são sofridas segundo a vontade de Deus, sejam elas quais forem. Acres­centamos, pois, a paciência à temperança. Então o coração, a vida espiritual, é livre de gozar dos seus verdadeiros objetivos ­princípio da maior importância na vida cristã. Quando a carne atua, de uma maneira ou de outra (ainda que a sua ação seja puramente interior), se há algo acerca do qual a consciência deveria ser exercitada, a alma não pode ter o gozo da comunhão de Deus na luz, porque o efeito da luz consiste em pôr a consciência em exercício. Porém, quando a consciência não tem nada que não esteja já julgado na luz, então o homem novo está em atividade relativamente a Deus, quer gozando da alegria da Sua pre­sença, quer glorificando-O por uma vida caracterizada pela piedade. Nós gozamos da comunhão de Deus, andamos com Deus; juntamos à paciência a piedade.

Estando assim o coração na comunhão de Deus, a afeição corre livremente para aqueles que Lhe são queridos e que, participando da mesma natureza, fazem necessariamente sobressair as afeições do coração espiritual: desenvolve-se o amor fraternal.

Há um outro princípio que coroa, governa e caracteriza todos os outros: é a caridade, o amor propriamente dito. O amor é, no fundo, a natureza do próprio Deus, a origem e a perfeição de todas as outras qualidades que embelezam a vida cristã. A distinção entre o amor e a afeição fraternal é de uma grande importância: O primeiro, como acabamos de dizer, é verdadeiramente a fonte de onde decorre a segunda. Mas como esta afeição fraternal existe nos homens mortais, ela pode, no seu exercício, ser misturada com sentimentos puramente humanos, com afeições indivi­duais, com o efeito de atrativos pessoais, de hábitos ou de conveniências de caráter. Mas nada é mais doce do que as afei­ções fraternais. A sua manutenção é da mais alta importância prá­tica na igreja; todavia, elas podem degenerar, tal como podem arrefecer. E, se o amor, se Deus não ocupa o primeiro lugar em nossos corações, elas podem substituí-LO, pô-LO de lado ­excluí-LO! ...

O amor divino, que é a própria natureza de Deus, dirige, regula a afeição fraternal e dá-lhe o Seu caráter. Aliás, é o que nos é agradável a nós - quer dizer, ao nosso próprio coração - que nos governe. Se o amor divino me governa, eu amo todos os meus irmãos. Amo-os, porque eles pertencem a Cristo; não há parcialidade! Sentir-me-ei mais feliz na companhia de um irmão espiritual, mas ocupar-me-ei do meu irmão mais fraco com um amor que se eleva muito acima da sua fraqueza e dele tem conta com ternura. Ocupar-me-ei do pecado do meu irmão, por amor de Deus, para restaurar o meu irmão, repreendendo-o, se for necessário. Se o amor divino está em exercício, o amor fraternal, ou o seu nome, não podem ser associados à desobediência. Numa palavra, Deus terá o Seu lugar em todas as minhas relações. Exigir o amor fraternal de uma maneira que exclua as exigências do que Deus é e dos Seus direitos sobre nós é excluir Deus da maneira mais plausível,para satisfazer os nossos próprios corações. Portanto, o amor divino, que atua segundo a natureza, o caráter e a vontade de Deus, é o que deve dirigir e caracterizar toda a nossa vivência cristã e ter autoridade sobre todos os movimentos dos nossos corações. Sem isso tudo aquilo que os afetos fraternais podem fazer é colocar o homem no lugar de Deus. O amor divino é o vínculo da perfeição, porque Deus é amor, trabalhando em nós e fazendo-Se o objeto dominante de tudo o que se passa no coração.

Ora, se estas coisas se en­contram em nós, o conhecimen­to de Jesus não será estéril nos nossos corações. Pelo contrário, se elas faltam, somos cegos, não vemos longe nas coisas de Deus, a nossa vista está enfraquecida, limitada pela estreiteza de um coração governado pela sua própria vontade e desviado pelas suas próprias concupiscências. Esquecemos que fomos purificados dos nossos pecados de outrora; perdemos de vista a posição que o Cristianismo nos deu. Este estado de coisas não é a perda da segurança, mas o esquecimento da verdadeira posição cristã, em que somos introduzidos - a pureza em contraste com os caminhos do mundo. É por isso que devemos ser diligentes para termos a consciência da nossa eleição fresca e forte, de maneira a andarmos em liberdade espiritual. Fazendo-o, não tropeçaremos, e uma entrada franca no reino eterno será a nossa porção.

Aqui, como em toda a parte, vemos que o espírito do apóstolo está ocupado do governo de Deus, fazendo a sua aplicação aos Seus caminhos para com os fiéis, no que respeita ao comportamento destes e às conseqüências práticas desse procedimento. Não se trata de perdão ou de salvação de uma maneira absoluta, mas do reino - da manifestação do poder dAquele que julga com Justiça ­cujo ceptro é um ceptro de Justiça. Andando nos caminhos de Deus, temos parte nesse reino, entrando ali com segurança, sem dificuldades, sem essa hesitação de alma que sentem aqueles que entristecem o Espírito Santo e adquirem uma má consciência, e que fazem coisas que não estão de acordo com o caráter do reino, ou que, pela sua negligência, mostram que o seu coração não está ali. Se, pelo contrário, o nosso coração está ligado ao reino e andamos nos caminhos que convêm ao reino, a nossa consciência está em harmonia com a sua glória. a caminho está aberto diante de nós; vemos ao longe, e vamos em frente, sem entraves. Nada nos demoverá, porque andamos no caminho que conduz ao reino, ocupados com as coisas que lhe convêm. Deus não tem controvérsias com uma alma que anda desta maneira. A entrada do reino está-lhe francamente aberta, segundo os caminhos do governo de Deus.

O apóstolo quer, pois, recordar estas coisas aos Cristãos, embora eles as saibam, propondo-se, enquanto estiver no seu tabernáculo terrestre, despertar os seus corações puros, para que eles recordem essas coisas, porque ele devia brevemente deixar o seu vaso terrestre, como o Senhor lhe tinha já revelado; e, ao escrever-­lhes assim, diligenciava que eles se lembrassem sempre disso.

Vê-se bem que Pedro não esperava que outros apóstolos fossem suscitados, nem que uma sucessão eclesiástica, que os substituísse como guardiões da fé, surgisse com autoridade, bastante para constituir um fundamento para a fé dos fiéis. Tinha de prover ele próprio a tal, a fim de que, quando partisse para a Eternidade, os fiéis encontrassem, da sua parte, algo que lhes recordasse os ensinamentos que ele lhes tinha ministrado. Eis a razão porque ele escreveu a sua Epístola.

A importância divina e a cer­teza das coisas que ele ensinava justificavam bem que ele lhes escrevesse. Nós não seguimos - diz o apóstolo - fábulas artificialmente compostas, quando vos demos a conhecer a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, pois nós mesmos fomos testemunhas oculares da Sua majestade.

O apóstolo fala, como as suas palavras o demonstram claramente, da transfiguração. Faço aqui esta observação para melhor fazer compreender que, no seu pensamento da vinda do Senhor, ele não vai além da Sua aparição em glória. De momento, o Senhor estava oculto para aqueles que a Ele se confiavam. Isto era uma grande prova da fé deles, porque os Judeus estavam habituados, como sabemos, a esperar um messias visível e glorioso. Deviam aprender a crer sem ver; e a sua fé recebia um magnífico apoio no fato de o apóstolo, que os ensinava, e os seus dois companheiros, terem visto, com os seus próprios olhos, manifestada a glória de Cristo. Eles tinham-na visto manifestar­-se na sua frente, juntamente com a dos antigos fiéis que tinham parte no Seu reino. Nesse momento, Jesus recebeu, como testemunho de Deus o Pai, honra e glória, sendo-Lhe dirigida uma voz vinda da magnífica glória ­daquela nuvem que, para o Judeu, era a morada bem conhecida do Deus Altíssimo ­reconhecendo-O por Seu Filho bem-amado; voz que os três apóstolos tinham também ouvido (como tinham visto a Sua glória), quando estiveram com Ele no monte santo2.

2) Em Lucas 9, a parte mais elevada da bênção é colocada perante nós. Eles tiveram medo quando entraram na nuvem. Deus tinha, da nuvem, falado face a face com Moisés, mas aqui eles entraram nela. O caráter celestial e é eterno, o que é tão perpétuo como moral, mostra­-se muito mais em Lucas.

Vemos aqui que é a glória do reino, e não a morada na Casa do Pai para sempre com o Senhor, que ocupa o apóstolo. É uma manifestação aos homens que vivem na Terra; é o poder do Senhor, a glória que Ele recebe de Deus o Pai, como Messias, reconhecido por Seu Filho, e coroado de glória e de honra aos olhos do mundo. É no reino eterno que o apóstolo quer que a entrada lhes seja francamente aberta. É o poder e a glória que Cristo recebeu de Deus, que ele viu e a que presta testemunho. Nós possuiremos, sem dúvida, essa glória, mas ela não é a nossa porção propriamente dita, porque essa porção pertence aos do interior da Casa; nós somos a Esposa do Cordeiro, e essa parte não se mostra ao mundo. De resto, pelo que concerne à lgreja, as duas coisas não podem separar-se. Se nós somos a Esposa, participaremos segura­mente na glória do rein03. Para o Judeu, habituado a esperar essa glória (fossem quais fossem as idéias que ele fazia dela), o fato de o apóstolo a ter visto era de uma importância incalculável.

Era a glória celeste do reino, tal como será manifestada ao mundo, glória que será vista quando o Senhor voltar em poder (ver Marcos 9:1). É uma glória comunicada, que vem da glória magnífica. Além disso, os testemunhos dos profetas referem-se à glória que foi manifestada. Eles falaram do reino e da glória, e o esplendor da transfiguração deu uma magnífica confirmação às suas palavras. Temos confirmadas as palavras dos profetas, diz o apóstolo. Essas palavras proclamavam, com efeito, a glória do reino, que havia de vir, e o Julgamento do mundo, que daria lugar ao seu estabelecimento na Terra. Esta proclamação era uma luz nas trevas do nosso mundo, lugar verdadeiramente obscuro, que não tinha outra luz além do testemunho que Deus tinha dado pelos profetas, do que devia acontecer-lhe e do reino futuro, cuja claridade expulsaria finalmente as trevas da separação de Deus, em que este mundo jaz. A profecia era uma lâmpada que brilhava nas trevas da noite; mas havia uma outra luz para aqueles que velavam ...

3) Comparar Lucas 12, onde a alegria na casa é ligada com o fato de velar; a herança com o serviço.

Para o Remanescente dos Judeus, o Sol de justiça há de levantar-se com a cura nas suas asas; os malfeitores serão pisados como cinza sob os pés dos justos. O Cristão, instruído acerca dos seus próprios privilégios, conhecia o Senhor de outro modo, embora· crendo nestas solenes verdades. Ele vela durante a noite, que vai já muito avançada. Vê no seu coração, pela fé, o romper do dia e o nascer da brilhante Estrela da manhã. Ele conhece o Senhor, tal como O conheciam aqueles que criam nEle, mesmo antes de ter sido manifestado, nEle que vem para a pura e celestial alegria dos Seus, antes de resplandecer a claridade do dia. Aqueles que velam, vêem o romper do dia; vêem a estrela da manhã. Por isso nós temos a nossa parte em Cristo. E não somente no dia, e segundo o que os profetas falaram dEle; tudo isso se refere à Terra, embora a bênção venha do Alto. Nós temos o segredo de Cristo e da nossa união com Ele, o segredo da Sua vinda para nos receber, como a Estrela da manhã, antes que o dia chegue. Estamos com Ele durante a noite; estaremos com Ele, segundo a verdade desse vínculo celestial, que nos prende a Ele como separados para Ele mesmo, quando o mundo O não vê. Seremos reunidos a Ele, antes que o mundo O veja, a fim de gozarmos da Sua companhia e a fim de que o mundo nos veja com Ele, quando Ele aparecer.

Para nós, a nossa alegria será estar com Ele mesmo, "sempre com o Senhor". A profecia ilumina o Cristão e separa-o do mundo, pelo testemunho do Juízo, e da glória do reino vindouro. O testemunho do Espírito à Igreja faz a mesma coisa pela graça do próprio Cristo, brilhante Estrela da manhã - a nossa parte, enquanto que o mundo está ainda mergulhado no sono.

A resplandecente Estrela da manhã é o próprio Cristo, quando (antes do dia que será produzido pela Sua aparição) está pronto a receber a Igreja para que ela possa entrar na Sua própria alegria. Por isso nos é dito: "Eu sou ... a resplandecente estrela da manhã" (Apocalipse 22: 16). É o que Ele é para a Igreja, como é "a raiz e a geração de Davi" para Israel. Por conseguinte, logo que Ele diz: "a estrela da manhã", o Espírito, que habita na Igreja e lhe inspira esses pensamentos, e a esposa, a própria igreja, que espera o seu Senhor, dizem: "Vem!". Assim, no capítulo 2 de Apocalipse, verso 28, o Senhor promete aos fiéis de Tiatira que lhes dará a Estrela da manhã, isto é, a alegria de estarem com Ele mesmo, no Céu. O reino e o poder já lhes tinham sido prometidos, segundo os direitos de Cristo (versos 26-27): mas a parte própria da Igreja é o próprio Cristo. Além das declarações dos profetas quanto ao reino, é assim que a Igreja O espera.

O apóstolo continua a advertir os fiéis, dizendo-lhes que as profecias da Escritura não eram como as expressões da vontade humana, e não deviam ser interpretadas como se cada uma tivesse a sua solução particular - ou que cada profecia se bastasse a ela própria para dar a explicação completa do seu sentido. As profecias eram partes de um todo perfeito, tendo um só e mesmo alvo, o reino de Deus. E cada acontecimento era um encaminhamento preliminar para esse alvo e um elo nesse encaminhamento do governo de Deus, que ali conduzia. As profecias particulares eram impossíveis de explicar, se não se apreendesse o fim do conjunto - o alvo revelado dos desígnios de Deus na glória do Seu Cristo; porque os santos homens, impelidos pelo Espírito Santo, tinham proferido esses oráculos. Um só e mesmo Espírito dirigindo e coordenando o todo para o desenvolvimento dos caminhos de Deus aos olhos da fé, caminhos que terminariam pelo estabelecimento desse reino, cuja glória tinha aparecido por ocasião da transfiguração.

Em suma, neste capítulo, temos estas três coisas: Primeiro, o poder divino para tudo o que diz respeito à vida e à piedade, uma declaração infinitamente preciosa, o penhor da nossa verdadeira liberdade. O poder divino atua em nós, dá-nos tudo o que é necessário para nos tomar capazes de andarmos segundo a vida cristã. Segundo, o governo de Deus em relação com a fidelidade do crente, a fim de que uma entrada franca e abundante nos seja concedida no reino eterno, e que não tropecemos. O grande resultado desse governo será manifestado no estabelecimento do reino, cuja glória os três apóstolos tinham visto no monte santo. Terceiro, havia, para o Cristão, algo de melhor do que o reino, algo a que o apóstolo fazia somente alusão, porque não era esse o assunto especial das comunicações que lhe tinham sido feitas pelo Espírito Santo, como sucedera com o apóstolo Paulo, que nos mostra Cristo tomando a Igreja para Si mesmo, ponto que não entra nem nas promessas nem nas profecias, mas que faz a alegria e a esperança preciosas e inestimá­veis do Cristão ensinado por Deus.

 

"Estudos sobre a palavra de Deus” - II Pedro 2 e 3