Revista Leituras Cristãs

Conteúdo cristão para edificação

Velhos & Jovens – O idoso Elias e o jovem Eliseu

Infelizmente, também entre cristãos, o relacionamento entre jovens e velhos é dificultado ou perturbado.
Em contraste, a Bíblia contém muitos exemplos animadores de um bom relacionamento entre jovem e idoso, entre outros, Moisés e Josué, Jó e Eliú, Eli e Samuel, Noemi e Rute, Isabel e Maria, Mardoqueu e Ester, Paulo e Timóteo. Ela também nos mostra que ocorreu um processo educativo que precedeu esta união, pelo qual estes crentes aprenderam a conhecer melhor ao Senhor e a si mesmos. Um estudo minucioso de suas experiências nos habilitará a influenciar positivamente o relacionamento entre gerações em qualquer idade.
Desejamos nos voltar hoje aos profetas Elias e Eliseu.

Tempos difíceis

Quase vinte anos após a separação do reino de Salomão, Acabe se tornou rei sobre a parte norte, o reino de Israel. Econômica e politicamente as coisas não estavam mal. Mas para todos os israelitas, que queriam servir fielmente ao Senhor, começou um tempo terrível. Já há duas gerações as dez tribos do norte não iam mais às festas anuais do Senhor em Jerusalém. Eles se satisfaziam com um aparente culto a Deus em Betel, ou Dã, que era realizado diante de bezerros de ouro desde o rei Jeroboão, com desprezo a todas as ordens de Deus. Agora Acabe considerou chegado o tempo para apagar toda
a instituição do Senhor, o Deus de Israel. Por causa de Jezabel, sua mulher sidônia, introduziu com energia brutal o culto de Baal, o deus dos cananeus. A palavra de Deus diz:

“Acabe fez muito mais para irritar ao Senhor Deus de Israel, do que todos os reis de Israel que foram antes dele” (1 Reis 16:33).

Crer sob circunstâncias confusas

Diante deste fundo obscuro, a fé do profeta brilha muito mais, como nos é descrito em 1 Reis 17 e 18. Apoiado nas palavras da Escritura (Deuteronômio 11:16,17) e depois de insistente oração (Tiago 5:17), Elias comunica corajosamente a Acabe um juízo de Deus (1 Reis 17:1):

“Vive o Senhor Deus de Israel, perante cuja face estou, que nestes anos nem orvalho nem chuva haverá, senão segundo a minha palavra”.

Elias age, mais decidido ainda, no fim dos três anos e meio de seca, que tinham prejudicado fortemente a imagem de Baal. Ele deseja mostrar agora que só o Senhor é Deus, e que Seu poder e propósitos permanecem imutáveis.
Tudo o que Elias fazia ou dizia, se baseava na Palavra de Deus (até onde estava disponível na época): a edificação do altar; as doze pedras (segundo as doze tribos de Israel); a oferta sacrificada; a hora do sacrifício; ao dirigir-se a Deus dizendo: “Ó Senhor Deus de Abraão, de Isaque e de Israel” (1 Reis 18:36) — e o Senhor responde à sua fé de forma impressionante.
Nós ponderamos que o Senhor, também hoje, não Se adapta ao nosso estado, mas espera obediência absoluta à Sua Palavra?
A história de Elias prova que vitórias da fé não são questões de poder ou fraqueza, mas repousam na obediência à Palavra de Deus.

Após uma vitória, o risco é maior

“Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia maue, havendo feito tudo, ficar firmes” (Efésios 6:13).

Ainda no mesmo dia da vitória, Elias recebe uma ameaça de morte de Jezabel. Então ele abandona, sem ordem divina, seu campo de trabalho, o reino de Israel. Nós compreendemos bem o profeta. Também somos guiados, muitas vezes, pelo temor dos homens. Mas não era só isso; o Senhor enxerga mais fundo.


Elias fugiu “para escapar com vida”, e “foi sentar-se debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte”.
Ele inicia sua oração com as palavras: “Já basta”. Isto significa “eu não posso mais” ou “eu não quero mais”.
Primeiro o Senhorfortalece seu cansado servo. Bem mais tarde, no monte Horebe, vem a pergunta: “Que fazes aqui Elias?”.
Todos nós já não tivemos de ouvir esta pergunta com frequência? E quantas vezes, talvez com maior frequência ainda, deixamos de dar ouvidos a ela?
A resposta de Elias permite perceber que, ao lado do medo também havia uma profunda decepção, sim, uma amargura, que motivou a sua fuga — amargura sobre o povo de Deus. O Senhor continua seus esforços de graça: “põe-te neste monte perante o Senhor”! O profeta não devia permanecer magoado na caverna, mas estar de novo de pé perante o Senhor, como lhe foi dito na primeira ocasião. Então o Senhor, de forma prática, o faz entender que Sua graça por este povo ainda não havia chegado ao fim. Será que agora Elias pôde ver Israel com os olhos de Deus?

Ele acusa seus irmãos pela segunda vez, com as mesmas palavras! Sobre o Monte Carmelo ele ainda pôde pedir a todo o povo: “Chegai-vos a mim”! Ele sentia que o povo de Deus e o profeta deviam andar juntos. Aqui ele se coloca acima e contra o povo. Lá ele lutou pela honra do Senhor, aqui ele defende teimosamente sua própria honra.
Mas nenhum servo pode permanecer enxergando o povo de Deus e a si mesmo de modo diferente de Deus, sem se tornar inapto. Elias não quer se deixar usar como profeta da graça. Então precisa ouvir:

“Eliseu, filho de Safate de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar” (1 Reis 19:16).

Ele ainda precisa ouvir que é apenas um de sete mil fiéis. Uma indicação importante!
O evento no Monte Horebe ocorreu apenas entre o Senhor e Seu servo. Até onde dizia respeito a Elias, a questão estava concluída. Se mesmo assim ela nos é comunicada, então com certeza é porque, enquanto lemos, o Senhor quer nos mostrar questões muito sérias, a mim e a ti.

O jovem Eliseu

“Partiu, pois”, é a primeira coisa que nos é relatada de Elias após o ocorrido no Monte Horebe. O Senhorrecuperou o Seu servo. Mesmo assim ele precisa chamar o seu sucessor. Mas ele não o fez de modo relutante ou apático. O “eu” não causa mais problemas; ele procura Eliseu, e o acha.
Que haja mais servos assim, maduros, mais velhos, que se deixam alertar pelo Senhor sobre um ou outro “Eliseu”, e então, de maneira sensível e amorosa encaminhá-lo para prestar um abençoado serviço!
O Senhor geralmente chama Seus servos de uma vida profissional ativa e de uma situação familiar ordenada. Isto nós vemos aqui, como também em Moisés, Gideão, Davi, Daniel, Neemias, Pedro, João, Mateus, Lucas, Aquila e Priscila.
Eliseu — seu pai era obviamente rico — supervisionava onze aradores, enquanto ele mesmo manejava a décima segunda junta de bois. Então o profeta joga sua capa sobre o jovem, nomeando-o com isso servo do Senhor, e este compreende o chamado. Contudo, Elias lhe concede tempo suficiente para pesar as consequências para sua vida. Ele também não faz qualquer prescrição.
Quantos problemas, desvios e decepções não seriam evitados se irmãos imprudentes não tivessem impulsionado prematuramente os jovens que o Senhor queria usar para o serviço!
Mas o servo também pode se enganar quanto ao tempo; Moisés se enganou em quarenta anos.
Decidido, mas não precipitado, Eliseu rompe todos os relacionamentos de sua vida, até então; e lemos: “então se levantou e seguiu a Elias, e o servia”
(1 Reis 19:21). Isto ele fez por anos, até que se tornou “profeta no lugar de Elias”.
Durante este tempo, um homem como Eliseu não foi totalmente desafiado? O serviço baixo não poderia prejudicar sua imagem?
Muito pelo contrário:

“Aqui está Eliseu, filho de Safate, que derramava água sobre as mãos de Elias. E disse Jeosafá: Está com ele a palavra do Senhor” (2 Reis 3:11,12).
“Porque os que servirem bem como diáconos, adquirirão para si uma boa posição e muita confiança na fé que há em Cristo Jesus” (1 Timóteo 3:13).

Não te deixarei!

O último caminho, segundo a instrução divina, leva Elias até o Jordão, através de Gilgal, Betel e Jericó.
Em cada um dos três lugares Elias insta Eliseu a ficar para trás; mas como é bonita a resposta que se repete:

“Vive o Senhor, e vive a tua alma, que não te deixarei!”

Nesse ponto, talvez precisamos nos culpar ao pensarmos em irmãos mais idosos que, após anos de fidelidade em seu caminho, desaparecem cada vez mais do cenário em decorrência de
enfermidades ou pela idade!
Em cada lugar havia filhos de profetas que agora queriam contar a Eliseu o que ele já sabia — e antes de tudo cria. Neles, era um simples conhecimento intelectual, sem uma fé viva e, portanto, sem efeitos práticos. Quando a ascensão realmente aconteceu, eles insistiram em procurar Elias por três dias. Os duros e silenciosos anos de devoção prática a Deus que Eliseu havia compartilhado com Elias, não podem ser simplesmente substituídos por nada nem podem ser passados por alto.
Em outra época, o que diferenciava Timóteo dos “réprobos quanto à fé”?

“Tu, porém, tens seguido a minha doutrina, modo de viver, intenção, fé, longanimidade, amor, paciência, perseguições e aflições” (2 Timóteo 3:10,11).

Quantos precisaram abandonar uma obra importante porque lhes faltaram os anos de silêncio sob o Seu jugo, porque queriam lutar com Golias, antes de — sem ter sido notado — ter subjugado leões e ursos na fé!

Por isso não deixarei de exortar

(2 Pedro 1:12)
O Jordão se divide diante de Elias e Eliseu. Desta vez, o profeta não deixa a terra por sua própria vontade, nem com o desejo de morrer. O Senhorpreviu algo muito melhor para ele.

“Porque aos que me honram honrarei” (1 Samuel 2:30).

Mas ali estava Eliseu, que precisava ficar para trás. A respeito do Senhor Jesus, lemos que Ele amou os Seus até o fim (João 13:1). Quão comoventes são as Suas palavras de despedida (João 13 ao 16); Sua oração em João 17; e Suas disposições relativas à Sua mãe (João 19)!
Muitos servos fiéis também pensavam no tempo “depois de sua partida”; abençoavam e alertavam os que ficavam, por exemplo: Jacó, Moisés, Josué, Davi, Paulo, Pedro e outros.
Que tesouro o povo de Deus possui nos irmãos mais velhos, que veem tanta coisa com clareza e oram sobre isso. Como a sua partida é sentida! Não desprezemos suas advertências.
Agora Eliseu é exortado:

“Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti” (2 Reis 2:9).

Ele pede porção dobrada do espírito de Elias. Teríamos esperado isto deste jovem crente?
Era um tempo da maior fraqueza e visível decadência, onde até Elias quis resignar uma vez! Ele também diz claramente que Eliseu desejou coisa difícil, porque esta porção dobrada também custaria duplo esforço e dupla resistência.
Quem conhecia isto melhor que Elias? Por outro lado ele sabia que a medida de poder espiritual não dependia das circunstâncias do momento, mas apenas de fé e obediência.

O servo experiente não suaviza nada, mas também não desanima o mais jovem; ele tem uma palavra de Deus para ele.

A capa cai

“E sucedeu que, indo eles andando e falando” — não vamos ignorar isto.

Todos nós sabemos, por experiência dolorosa, como o caminho comum pode ser cheio de aflição e quão rapidamente se rompe o diálogo.
Aqui, dois crentes com diferença de idade de aproximadamente quarenta anos andam juntos no mesmo caminho e conversam. Oque os une é o zelo pela honra epela causa do Senhor.Logo em seguida, o ministério é passado naturalmente para a geração seguinte. Eliseu vê Elias partindo, e assim Deus atendeu seu pedido de dupla porção do espírito de Elias (Elias realizou sete milagres e Eliseu catorze).
Com uma fé decidida, ele toma a capa de Elias e rasga a própria roupa. Isto é um completo “sim” para o seu chamamento, no lugar de Elias. Então Deus confirma publicamente o chamamento, ao dividir as águas do Jordãonovamente.

A fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver

(Hebreus 13:7)
As experiências compartilhadas e a inalterada esfera de ação poderiam ter induzido Eliseu a, simplesmente, imitar o ministério de Elias. Mas ele imitou apenas a sua fé, no mais permaneceu dependente das instruções do Senhor. De outro modo, com certeza teria falhado na sua missão, pois, segundo a vontade do Senhor, ele devia agir num espírito de graça e não anunciar juízo.

Oremos por dependência!

Mais tarde, até mesmo Tiago e João pensaram que poderiam copiar Elias, quando queriam fazerdescer fogo do céu para consumir os samaritanos que rejeitaram ao Senhor (Lucas 9:54). A resposta do Senhor os guardou desta tolice. Eles teriam desonrado a Ele, o verdadeiro Eliseu, e teriam contrariado Seu propósito de graça.
Nós também corremos este perigo, assim que nossa comunhão pessoal com o Senhor for interrompida por qualquer motivo. Ela não pode ser substituída por bom exemplo ou experiência de longos anos, por mais valiosos ambos sejam.

H-J. K.

 

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