Revista Leituras Cristãs

Conteúdo cristão para edificação

A Segunda Vinda de Cristo (Parte 2)

Efésios 1

por J.N. Darby

No estudo sobre Tessalonicenses referi o fato de não se falar da Segunda Vinda do Senhor nas Epístolas aos Gálatas e aos Efésios. Portanto poderá parecer estranho que, sendo este o caso, eu tenha escolhido nesta ocasião o capítulo primeiro de Efésios. Procedi assim (e espero ter ocasião de referir outras passagens com a mesma intenção, no desejo de basear todos os meus comentários sobre a Escritura) porque este capítulo dá-nos uma idéia geral de todo o esquema e plano que será inteiramente cumprido na Segunda Vinda do Senhor. Não fala da vinda de Cristo, mas fala do propósito que Deus tem e que será então cumprido. E não só isso, mas mostra-nos a forma como a Igreja de Deus (quero dizer, todos os verdadeiros santos ajuntados para Cristo pelo Espirito Santo que desceu do céu) terá uma parte ou porção nesse propósito, quando da vinda de Cristo — qual é o lugar deles neste grande plano de Deus e como esse plano tem necessariamente por seu centro a exaltação do Filho, “o resplendor da sua glória”. Ele humilhou-se para ser exaltado.

O modo como Deus tem tratado conosco, prezados amigos, é este: Ele nos trouxe completamente para Si, tendo em atenção todo o valor da obra de Cristo; e, fazendo-o, deu-nos um lugar com Cristo que nos torna semelhantes a Cristo; e, tendo-nos assim perto de Si, mostra-nos todos os Seus planos.

Não é o caso de estarmos apenas salvos, mas de termos sido feitos filhos de Deus: “Tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus”. Então, havendo feito isso, Ele trata-nos — como é a Sua expressão a Abraão e a expressão de Cristo aos Seus discípulos — como amigos. O Senhor diz, “Ocultarei eu a Abraão oque faço?” E o que em seguida lhe contou não foi apenas que ele tinha achado graça em Si — isso já lhe havia dito antes. Não so lhe mostrou as promessas que lhe pertenciam e à sua descendência, mas contou-lhe também o que dizia respeito ao mundo e que não se referia imediatamente a si próprio. Esta é a característica especial da amizade.

Se eu tenho de tratar com um homem com quem estou de boas relações, mas não em relação de amizade, digo-lhe o que é necessário sobre o assunto de que tratamos, segundo a cortesia normal da vida; e nada mais. Mas se tenho um amigo digo-lhe o que sinto no meu coração. Isto é o que Deus faz com Seus filhos — como Cristo disse aos Seus discípulos: “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer”.

Não existe maior prova de extensão a que chegou a falta de compreensão da Igreja da sua identidade com Cristo do que o abandono a que voltou a expectativa da vinda de Cristo. E a que se deve esse desinteresse senão ao fato de que há tantas pessoas cujos corações não compreendem este pensamento que Deus as trouxe para tao perto de Si que elas são consideradas como tendo sido recebidas no seio da Sua família? “Filhos e filhas”, é a expressão, e filhos e filhas, também, de idade. Essa não era a posição sob a lei. Por isso é dito que “todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo. Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei. Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai”. E, por que temos o Espírito de Cristo, porque temos a unção do Santo, sabemos todas as coisas e temos o conhecimento de que somos filhos de Deus, filhos adultos, a fim de possuirmos a confiança do Pai.

E o mesmo Espírito, que é o Espírito de adoção, mostra-nos todas as coisas que nos são dadas liberalmente por Deus. “Mas como esta escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subam ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam”. E, geralmente, as pessoas param aqui; enquanto que o apóstolo continua, a fim de mostrar a diferença entre isso e o nosso estado, dizendo, “Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espirito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espirito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus” (I Corintios 2:9, 10 e 12).

Ora, não será estranho que as pessoas mencionem essa passagem que declara que o coração do homem não compreende as coisas que Deus preparou para aqueles que O amam e olvidem a declaração seguinte e que é um contraste da posição dos cristãos dizendo que Deus lhas revelou e lhes deu o Espírito para eles as poderem compreender? E não será uma coisa triste, visto que o Senhor nos pôs num tal lugar, em que nos confia (pobres criaturas como somos), em certo sentido, a glória de Cristo, depois de nos haver revelado todos os Seus pensamentos a respeito de Cristo, dizemos, “Oh, nós não pretendemos coisas como essas”?

Não digo que isso seja ingratidão — é pior do que isso: é desonrar o amor que Deus nos tem revelado. Suponhamos que uma criança dizia, “Eu não pretendo a confiança de meu pai: não quero; apenas quero obedecer-lhe”. Eu dir-lhe-ia que ela era uma criança muito infeliz, pois não sabia qual era o lugar de filho.

É precisamente isso que o apóstolo nos mostra neste capítulo. Primeiro, fala (embora eu não trate disso agora — não porque não seja um assunto precioso; pelo contrário, ocorreu-me, quando lia, quão suave é), na primeira parte do capítulo, do lugar em que estamos colocados diante de Deus: “…para que fossemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor e gloria da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado. Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas”. Somos feitos à semelhança de Deus e, justiça e santidade diante de Deus — “santos e irrepreensíveis diante dele em caridade”. Somos postos no lugar de filhos com a adoção de filhos, temos o perdão dos nossos pecados e somos aceitos no Amado.

Este é o lugar em que estamos; não existe outro lugar para o cristão. E, agora, diz o Senhor, tendo-vos colocado ali, vou dizer-vos qual é o meu plano para a glória de Cristo e vossa gloria com Ele. “Segundo as riquezas da sua graça, que Ele fez abundar para conosco em toda a sabedoria e prudência; descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo. De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos”. Não só nos deu esta redenção de forma que sabemos onde estamos no nosso parentesco com Deus, mas, tendo este parentesco, mostrar-nos tudo isto do seu plano — “ De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra.”

Note em que se consiste a nossa ligação: “… em que também fomos feitos herança”. Nós somos herdeiros, como o apóstolo diz aos Romanos — “herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo”. Quer dizer, vou dar tudo a Cristo; vou juntar em um todas as coisas nos céus e na terra; e vós sois co-herdeiros dEle — com Ele tendes a herança. Este é o modo como o capítulo nos apresenta o propósito e o pensamento de Deus.
Vejamos as diversas passagens que mostram como Deus realiza isto, e a forma como, prezados amigos, Ele nos fará entrar na posse da herança. Pois é isto que esperamos. Não esperamos ser herdeiros, mas esperamos a herança. Não esperamos ser filhos — somos todos filhos de Deus pela fé em Cristo —, mas esperamos receber aquilo que pertence aos filhos.

Pobres vasos da terra aqui, no deserto, esperamos o cumprimento desta promessa. Ele deu-nos “o Espirito Santo da promessa, O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para louvor da sua glória”. A glória da Sua graça, já a temos — a redenção; mas a glória que ainda não alcançamos, essa esperamo-la.

Tal é a ordem da sua oração: a nossa chamada, a nossa posição junto de Deus; a nossa herança, isto é, tudo de que somos herdeiros juntamente com Cristo; e, depois, há o poder que nos põe de posse dela — o mesmo poder que ressuscitou Cristo de entre os mortos e que tem levantado todo o crente do seu estado de morte em pecado ao mesmo lugar com Cristo. E, havendo-os constituído em um, no final mostra-nos o lugar a que Cristo foi elevado — à sua direita nos céus, acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; e sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.

Isto ajuda-nos a ver um pouco do modo como Deus executa o Seu plano, e foi para mostrar o que esse plano é que eu decidi falar sobre este capítulo — “de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” — em Cristo como a Cabeça. Mas quando Cristo toma este lugar como homem (claro, como Deus, Ele é sobre todos), nós tomamos a herança conjuntamente com Ele. Somo co-herdeiros — “em quem também fomos feitos herança”. E em Romanos, lemos também, “…somos logo herdeiros, também herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo”.

Ora é precisamente deste principio que muitos cristãos estão esquecidos, tendo perdido a compreensão do modo como foram trazidos por Deus ao mesmo lugar como Cristo, que Se fez homem com o propósito de nos trazer ao mesmo lugar com Ele Mesmo: “Dei-lhes a glória que a mim me deste”. Se Ele é Filho, também nós o somos. Ele é a nossa vida, a nossa justiça. Quando se transfigurou, Moises e Elias apareceram na mesma glória, falando familiarmente com Ele. E nós devemos considerar que o Senhor desceu em mansidão e humildade entre nós para que os nossos corações pudessem chegar bastante perto dEle para compreenderem isso.

Tendo, portanto, obtido o plano, vamos prosseguir agora com algumas passagens da Escritura a fim de mostrar como o Senhor o executa. Se nos voltarmos para o Salmo 2 veremos a forma que o Senhor foi primeiramente apresentado no mundo para ter o domínio terrestre e foi rejeitado(1) e, também, como as duas coisas são imediatamente ligadas. “Por que se amotinam os gentios, e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o Senhor e contra o seu ungido”. Isto é mencionado por Pedro a respeito de Herodes e Pilatos.
“Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles”. Isto é, Cristo mesmo zombará deles. “Então lhes falará na sua ira, e no seu furor os turbará”. Isto ainda não aconteceu. “Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião” —não obstante toda esta rejeição — “Proclamarei o decreto: o Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão. Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro”. Estes juízos ainda não foram, evidentemente, executados.

E agora, em confirmação do que acabo de dizer, voltemos para o Apocalipse, no final do segundo capítulo, para vermos o modo como somos ligados com Cristo. “E ao que vencer, e guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei poder sobre as nações, e com vara de ferro as regerá; e serão quebradas como vasos de oleiro; como também recebi de meu Pai”. Refiro-me a isto agora com o fim de mostrar que até em tais coisas os santos estão ligados com Cristo, apesar destas coisas não serem as mais bem-aventuradas em que estão relacionados com Ele. É dito imediatamente depois: “E dar-lhe-ei a estrela da manhã” — Cristo mesmo; e isto é infinitamente mais precioso. Contudo, Ele associa-os ainda Consigo em Sua glória. Recebe estes gentios por herança e quebra-os em pedaços, e assim fareis vós com Ele, se fordes fiéis.

É estranho ver o modo como a Igreja de Deus perdeu o sentimento de todas as coisas; e eu me refiro a estas passagens para mostrar como os santos são associados a Cristo até mesmo nestes casos extremos. “Não sabeis vós” — diz Paulo aos Coríntios — “que os santos hão de julgar o mundo?” Diz-lhes para pensarem nisto, e então considerarem se não eram dignos de “julgar as coisas mínimas” (falando dos santos se envolverem em questões judiciais). Não podeis, nenhum de vós, julgar as coisas vulgares entre vós — “não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?” Era preciso dizer-lhes isto, porque eles não tinham um conhecimento próprio do lugar em que Cristo tinha posto os santos, porque não viam a sua participação com Cristo em toda a plenitude do seu significado. Referi-me a esta parte que os santos têm no julgamento com Cristo, não porque seja a parte mais bem-aventurada, mas como a confirmação do que tenho dito sobre a união dos santos com Cristo.

Note que o Salmo 2 fala da vinda de Cristo e da Sua rejeição. Pedro cita-o nesse sentido e Paulo refere também as palavras “Tu és meu filho, hoje te gerei”. E, sendo rejeitado, o Senhor (isto é, Cristo) é ali apresentado como Aquele que ri — o que é, claro, uma figura — de todas as nações amotinadas; e é dito que o tempo virá em que Ele se sentará em Sião, apesar da oposição de todas elas, e todo o mundo Lhe será dado por Sua herança. Isto, porém, não O apresenta amplamente. Aqui Ele está apenas relacionado com o destino dos judeus e o julgamento dos gentios bem como dos rebeldes no tempo do fim.

Quando da Sua primeira vinda foi rejeitado — o Messias, o Ungido. E note a luz que isto lança até mesmo sobre o Evangelho. Deparamos com Cristo recomendando abertamente aos Seus discípulos que não deviam mais dizer que Ele era o Cristo, porque devia ser rejeitado: “É necessário que o Filho do homem” — diz Ele— “padeça muitas coisas”. Era como se houvesse dito, “Não vou tomar agora o meu lugar como Rei de Sião. Venho de outro modo. Venho para ser o sofredor Filho do homem, a fim de poder tomar depois um lugar muito mais elevado de glória”. Por isso, vemos em Lucas e nos outros dois Evangelhos que Ele recomendou terminantemente aos Seus discípulos que não dissessem que Ele era o Cristo, porque isso já tinha acabado em consequência de ter sido rejeitado.

Vejamos agora o Salmo 8. “Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus! Tu ordenaste força da boca das crianças e dos que mamam, por causa dos teus inimigos, para fazer calar ao inimigo e ao vingador”. Isto, como sabemos, foi cumprido quando Ele entrou montado num jumento em Jerusalém.

“ Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés”. Aqui é dado a entender que, apesar de, como Cristo, ter sido rejeitado, Ele toma o Seu lugar, em consequência dessa rejeição, como Filho do Homem, no qual todas as coisas deviam ser postas debaixo de Seus pés. Teremos ocasião de ver como os apóstolos discorrem sobre este assunto no Novo Testamento.

Estes dois Salmos mostram a Sua vinda entre os judeus e como, sendo rejeitado, toma contudo o Seu lugar sobre estes rebeldes no fim, apesar da sua rebelião. Porém a consequência imediata da Sua rejeição é que Ele toma o lugar que sempre atribui a Si nos Evangelhos de ser o Filho do Homem.
Voltando ao Novo Testamento, vemos que este oitavo Salmo é citado no primeiro capítulo de Efésios, “Sujeitou todas as coisas a seus pés” e, estando nesse lugar, “sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo”. A igreja é o Seu corpo, fazendo o homem completo, e por isso é dito que é “a plenitude daquele que cumpre tudo em todos”.

Cristo é uma pessoa divina, embora homem, e cumpre todas as coisas, mas é a Igreja que O torna, como Filho do Homem, completo: cumpre o que é chamado o Cristo místico do qual Ele é a cabeça, completando todos os membros da Igreja a Seu corpo.

A Igreja está portanto intimamente associada com Ele assim como a própria carne do homem o está consigo. Esta é a comparação empregada em Efésios: “Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta, como também o Senhor à igreja; Porque somos membros do seu corpo” —da sua carne e dos seus ossos. E neste corpo, havendo um só Espírito, a Igreja está associada com Cristo tendo parte na Sua supremacia e em todas as coisas. Vemos Cristo, o Filho do Homem, posto sobre todas as coisas nos céus e na terra, segundo os desígnios de Deus: e nós, estando intimamente ligados a Ele, Seus remidos, Seus irmãos, co-herdeiros e membros do Seu corpo, estamos completamente identificados com Ele no Seu lugar de chefia. Vemos assim a conexão da Igreja com a glória de Cristo na Sua vinda.

Encontramos a mesma coisa em Hebreus 2, onde o apóstolo, referindo-se ao oitavo Salmo, mostra até onde está cumprida. “Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, De glória e de honra o coroaste, E o constituíste sobre as obras de tuas mãos; Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que lhe não esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas”. O tempo ainda não é chegado. “Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte”. Note oque temos aqui. Eis que o propósito de Deus de sujeitar todas as coisas a Cristo sem qualquer exceção — nada é deixado que Lhe não seja sujeito.

De fato, Ele criou todas as coisas, e, portanto, é herdeiro de tudo. Mas o ponto é este, que o que Ele criou como Deus, toma-o como herança como homem, para que nós pudéssemos toma-lo com Ele; mas esse tempo ainda não chegou. Ainda não vemos que todas as coisas Lhe estejam sujeitas, vemos coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menos do que os anjos; vemos cumprida essa metade das coisas, mas não a outra metade; ainda não vemos que todas as coisas Lhe estejam sujeitas. Isto é o que o apóstolo relata, e a razão temo-la no Salmo 110, o qual o apóstolo cita também em Hebreus e para o qual o Senhor mesmo apelou em argumentação com os fariseus sobre este mesmo assunto. “Disse o SENHOR ao meu Senhor: Daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. E portanto em Hebreus 10 o apóstolo diz: “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” — quer dizer, a obra da sua redenção — “Daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés” — até que todos sejam postos por Deus debaixo dos Seus pés.

Terei oportunidade de me referir outra vez a este assunto. Porém agora falo da bendita segurança que é para os santos, que Cristo esteja à mão direita de Deus, esperando até que os Seus inimigos sejam postos por escabelo de Seus pés. Ainda não foram feitos escabelos de Seus pés, pois se o fossem, Ele não consentiria que as coisas corressem no mundo como correm no tempo presente. Deus está fazendo outra coisa diferente. Está reunindo os Seus co-herdeiros, e, tendo este propósito, diz: Daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Quanto à questão do tempo em que isso terá lugar, “desse dia e hora ninguém sabe, nem o Filho”. Mas é dito ao Filho: Senta-te à Minha mão direita até que esse tempo seja revelado.

Temos, pois, o plano revelado tão claramente quanto a linguagem o pode fazer. Vemos Jesus, que, havendo efetuado por Si mesmo a purificação dos nossos pecados, “assentou-se nos céus a destra do trono da majestade”, e está, desde então, pelo evangelho, reunindo os Seus co-herdeiros. E nós estamos associados com Ele, enquanto Ele ali está a destra de Deus — associados com Ele e unidos a Ele pelo Espírito.

Se nos voltamos agora para outra passagem — 1 Coríntios 15 — veremos a maneira como obtemos este lugar de glória quando da ressureição, estando todas as coisas sob os Seus pés.

“Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda” — os que são os Seus herdeiros, eles e mais ninguém. “Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte. Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas”. Isto é, Deus o Pai não Lhe é sujeito, mas a própria exceção prova rigorosamente que tudo o mais lhe é sujeito — exceto somente Deus o Pai.

Mas é dito, “ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas”. Acaso julga alguém que a opressão, as guerras, a maldade e horrores que no tempo presente mancham a história do mundo seriam consentidas se todas as coisas estivessem agora postas debaixo de Seus pés? É satanás, e não Cristo, que é agora o príncipe e deus deste século. É estranho como tantas pessoas imaginam que a cruz pôs fim a isso. Deu-se exatamente o contrário. A cruz foi a grande demonstração — e nunca houve antes uma tal demonstração — de que satanás é o príncipe e deus deste mundo. “se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim” (João 14:30), disse o Salvador. Antes de Cristo ter sido rejeitado satanás nunca foi chamado o príncipe desse mundo. Antes disso, Jeová estava na terra, e no templo estava a Shekinah de glória. Mas quando por fim Ele veio ao mundo na pessoa de Cristo, e o mundo o rejeitou, então, e desde então satanás é o príncipe deste mundo. E é nesse sentido que o apóstolo diz, “Aos quais o deus deste século cegou os entendimentos para que não creiam”. Quando o Senhor vier outra vez, Ele será o príncipe deste mundo, mas enquanto Ele não vier, satanás é o príncipe.

Se verificarmos Lucas 19 veremos como o próprio Senhor explica o caso, quando fala de ir para uma terra remota a fim de tomar para si um reino, e como ali tomou esse reino e voltando executou os juízos a que se refere.

“E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu, e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus”. Esperavam pelo reino, e julgavam que, em vez de o Senhor ser rejeitado, como foi, eles receberiam o reino com Ele em seguida de um modo natural. Ele “Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois. E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha”. Esse é o serviço dos cristãos, enquanto o Senhor está ausente. Ele partiu para receber o reino e ainda não veio. Então segue-se o julgamento dos servos, quando voltou. “E aconteceu que, voltando ele, depois de ter tomado o reino, disse que lhe chamassem aqueles servos”. E começa a tomar nota do serviço. E então, acabado isso, Ele diz, “E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim”. Isso dá se depois de ter tomado o reino e voltado outra vez.

Não julga enquanto está ausente. É dito “E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo; Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai” (João 5: 22,23). Mas se Ele tivesse de começar a julgar agora, teria de acabar o tempo de graça e portanto a edificação da igreja. O Pai julga os santos, mas fá-lo em disciplina — “E, se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um” (1 Pedro 1:17). Mas quanto ao juízo definido é dito em João: “…o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo”. Quando o Filho voltar, tomará nota dos Seus inimigos e executará o juízo sobre eles. No entanto Ele foi tomar um reino, e ainda não voltou. Quando voltar, não consentirá que continue a iniquidade que agora vemos. Mas quanto ao presente, este é o tempo em que devemos vigiar em fidelidade, ocupando-nos até que Ele venha, e negociando propriamente com aqueles talentos, os dons espirituais, que Ele nos deu.

Se nos voltarmos para Colossenses 1, poderemos ver como isto é notoriamente realizado. Quero alongar-me um pouco sobre este ponto, a fim de podermos obter um conhecimento tanto quanto possível dos pensamentos e do plano de Deus, os quais me parece serem claramente apresentados nas Escrituras. Comecemos no versículo 12, o qual nos mostra onde nós (quero dizer todos os crentes) estamos “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos”. Fez-nos idôneos — é um caso arrumado. Encontramos sempre isto na Escritura: não encontramos nada a respeito de nos tornarmos idôneos: fala em crescermos em tudo para Cristo, mas isso é uma coisa diferente.

“O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor; Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados; O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” — esta é a razão por que Ele está sobre todas as coisas.
“Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele” (versículo 16). Deve tomar todas as coisas em sujeição, mas não no estado de iniquidade em que se encontram agora. “Ainda não vemos que todas as coisas lhe sejam sujeitas.”

E como toma posse delas? Como homem — “A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” (Hebreus 1:2), e nós somos nomeados co-herdeiros, como diz a Escritura. Vemos, portanto, como tem lugar a segunda parte.

“E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” — isto é, porque Ele é uma pessoa da divindade. “E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência”. Tem esta dupla chefia porque é também mencionada no capitulo que lí de Efésios — “sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja”. Para que “por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus. A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora, contudo vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” (Colossenses 1:20-22). Não é dito, “vos reconciliará”, mas, “vos reconciliou”.

Mas a reconciliação de todas as coisas no céu e na terra é futura, porque satanás ainda não foi preso. A própria cristandade tem sido corrompida do modo mais terrível — nada há em todo o universo tão corrompido como ela — porque satanás não esta amarrado. O apóstolo diz, “… por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as questão nos céus”, ou, como está escrito em Efésios, “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas” — mas não diz que isso já foi feito. Nem tão pouco fala dos que estão debaixo da terra. Quando fala de sujeição, de todas as coisas se Lhe submeterem, é dito “para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus e na terra e debaixo da terra”. Não diz que são reconciliados mas submetidos; mas “a voz”, diz, “vos reconciliou”.

Vemos assim a verdade quanto à dupla supremacia de Cristo, como Cabeça da Igreja e Cabeça sobre todas as coisas; e em seguida a dupla reconciliação, a reconciliação e redenção presente da Igreja pela graça, e a reconciliação de todas as coisas no céu e na terra. Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe sejam sujeitas, mas vemo-lO, pela fé, assentado a destra de Deus até que os Seus inimigos sejam postos por escabelo de Seus pés. E quando esse tempo chegar, e todos forem postos sob o Seu domínio, Ele tomará posse, segundo o caráter atribuído a Deus na designação de Melquisedeque, quando saiu para abençoar Abrãao, “o Deus altíssimo, possuidor dos céus e da terra”; e quando Cristo Se torna em toda a sua plenitude o Rei e Sacerdote sobre o Seu trono, Deus terá esse título.

Chegamos, pois, ao ponto seguinte, que pretendo acentuar. Considerando estes dois pontos, que o Senhor vai reconciliar Consigo todas as coisas no céu e na terra, e que vai também congregar em um todas as coisas tanto as que estão no céu como as que estão na terra, vemos também, nas diversas passagens que tenho citado, que a Igreja, ou os santos que a compõem, são Seus co-herdeiros. O que tenho procurado mostrar é que a Igreja de Deus (todos os santos que, neste tempo presente, Deus está juntando pela graça no Evangelho) está associada com Cristo, como o centro de bênção, que tem o mesmo lugar com Ele, sob quem tudo quanto existe deve ser posto. Porém, o tempo da sua realização, de que a Escritura fala, é quando Cristo recebe o reino e vem outra vez — quando vem a dispensação da plenitude dos tempos. Então todas as coisas serão postas em ordem e bem-aventurança sob o domínio de Cristo. Quando Deus o Pai tiver posto todas as coisas sob os Seus pés, Ele porá todas as coisas em ordem e então entregará o reino. Mas o ponto central durante a dispensação da plenitude dos tempos nos lugares celestiais será a Igreja, e o centro de todas as coisas nos lugares terrestres serão os Judeus.

Isto leva-nos aos dois assuntos principais da Sagrada Escritura, depois da rendição pessoal. A igreja é o meio pelo qual Deus manifesta a Sua graça soberana dando aos seus membros parte da glória de Cristo. Os judeus são o povo no qual revela, como centro, o governo desse mundo. Estes são os dois assuntos principais da Escritura, depois da salvação pessoal. A Escritura fala da Igreja de Deus como daqueles que estão associados com Cristo, os herdeiros da glória de Cristo. Mas logo que dizemos isto, não podemos deixar de pensar como é maravilhoso que pobres e miseráveis criaturas como nós fossem introduzidas na mesma glória com Cristo — trazidas para o mesmo lugar com Ele. E a obra da reconciliação deve abranger todas as coisas no céu e na terra.

Este mundo não vai continuar para sempre como o lugar de desporto e campo de jogos do diabo. Isso não será consentido para sempre. O Filho de Davi ainda há de ter nele o Seu lugar e também a Sua glória, como seu legislador e o mundo será então alterado. “Não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte”. Virá um tempo em que Cristo será o Príncipe da Paz. Ele tem declarado positivamente que não é assim no tempo presente. “Cuidaivós que vim trazer paz à terra? Não, vos digo, mas antes dissensão; Porque daqui em diante estarão cinco divididos numa casa: três contra dois, e dois contra três. O pai estará dividido contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe”, etc. Quer dizer, este é o tempo em que a introdução da luz desperta as paixões dos homens, e, até que a segunda vinda de Cristo acabe com elas, continuam o seu enfurecimento.

E os cristãos agora têm de tomar a sua cruz e segui-Lo. Se Cristo reinasse os Seus seguidores teriam apenas uma cruz? Pelo contrário, teriam uma coroa. É dito positivamente que a sua parte é a cruz. Devemos agora tomá-la cada dia — mas quando Cristo reinar, essa não será a parte do Seu povo, Ele virá “para ser glorificado com os seus santos”, e eles terão um lugar glorioso, quando Ele vier para reinar.

Quando este tempo vier, de congregar em um todas as coisas, a Igreja de Deus será o centro de todas as coisas nos lugares celestiais, e os judeus o centro de todas as coisas na terra, sendo Cristo o Cabeça sobre tudo. É o que encontramos relatado no capítulo 1 de Efésios: “para que saibais … qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus, Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro;” — o tempo que falamos especialmente —; “E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo.”

É o mesmo poder qe ressuscita os santos, e assim, no capítulo seguinte, falando dele como se já o possuísse espiritualmente, o apóstolo diz: “E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.”

Deus, assuntando-se acima dos anjos e principados e potestades no mundo vindouro, mostra as riquezas da Sua graça no lugar que nos tem dado, pela Sua benignidade para conosco. E isto é o que eu tenho procurado mostrar ao leitos, apresentando-lhe estas várias passagens, isto é, que, nos séculos vindouros, Deus vai mostrar as abundantes riquezas da Sua graça, pela Sua benignidade para consigo.

Os anjos vão conhecer as imensas riquezas da graça de Deus — e como? Por havermos sido feitos participantes da glória de Cristo, pela benignidade de Deus para conosco em Cristo Jesus. De forma que, quando vêem Maria Madalena, o ladrão na cruz, a mulher da cidade, que era uma pecadora, qualquer um de nós, no mesmo lugar de glória com Cristo, podem admirar as abundantes riquezas da Sua graça. Lançando mão de tudo isto, até mesmo agora, pela fé no ensino do Espírito de Deus, apesar de não gozarmos ainda de todos os seus frutos, podemos ver como o nosso lugar no tempo presente é muito proveitoso como meio de disciplina, exercício e educação espiritual, embora o seu pleno desenvolvimento seja ainda futuro, quando a benignidade de Deus para conosco for manifestada aos anjos.

Quero agora mostrar em parte a maneira como o Senhor nos introduz neste lugar de associação Consigo. Mas primeiro vou referir a passagem do capítulo dezessete do Evangelho de Joao, em que o Salvador relata o fato de que os santos compartilham com Ele a Sua glória e o amor do Pai. É uma passagem maravilhosa, mostrando-nos como o amor de Cristo excede todo o entendimento.

“E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela tua palavra hão de crer em mim; Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” Esta mensagem diz respeito ao tempo presente, ou, pelo menos, ao que deveria ser o caso no tempo presente. E então o Senhor reporta-se ao futuro. “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça (não para que creia) que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim.”

A glória que a mim me deste — diz o Senhor, isto é, a glória que Ele toma como homem, porque como pessoa divina a Sua glória era eterna — dei-lha, e isto para que o mundo, quando vê o Meu povo como Eu, tendo a mesma glória que Eu tenho, conheça que tu me enviaste. Os santos deveriam ser um no tempo presente como testemunho de que existe um poder no Espírito Santo de Deus para vencer todas as diferenças carnais. Infelizmente não é assim! Isso é também um assunto precioso, mas devo limitar-me no assunto que, de momento, mais nos interessa. Quanto ao tempo presente é dito, “para que o mundo creia”; do futuro, “para que o mundo conheça.” “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste… para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim.” O mundo conhecerá isto plenamente para sua condenação — para condenação de todos os rebeldes, quando virem aqueles que se habituaram a desprezar vindo com Cristo em glória.

Ora, o leitor crê isto? Os nossos corações deveriam conhecer e reconhecer este amor. Não quero dizer profundá-lo, porque isso eles não podem fazer, mas confiar nele, e conhecê-lo, embora ele exceda todo o entendimento. Como vemos, o tempo aproxima-se em que o mundo conhecerá também esse amor de Deus por nós.

Vamos agora prosseguir então com o versículo 25. “Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja.”

Isto é o que desfrutamos no presente — o amor com que Cristo é amado está em nós — temos este amor em nossas almas. Ninguém pode profundá-lo, pois ele excede todo o entendimento; ainda assim, nós possuímo-lo e conhecemo-lo e isto porque Cristo está em nós.

Não temos que esperar até que o mundo veja que estamos com Cristo na glória para o conhecermos, porque o Pai nos ama no presente como ama a Cristo.

Se voltarmos os nossos olhos para Coríntios 15, veremos como esta mesma verdade é apresentada em ligação com a ressureição. O ´ponto para o qual chamo agora a atenção do leitor é que a Escritura nos mostra estas duas coisas: que seremos como Ele é, completamente semelhantes a Ele, exceto que Ele é uma Pessoa divina, e que o tempo em que seremos semelhantes a Ele será quando formos ressuscitados de entre os mortos. É então que seremos manifestados com Ele. Agora já não somos do mundo, mas é dito que o mundo só conhecerá que temos sido amados como Cristo foi amado quando nos vir no mesmo lugar de glória com Ele, quando o Senhor nos levar para estarmos com Ele e nos colocar nesta glória; de forma que quado Ele Se manifestar ao mundo nós seremos manifestados com Ele na mesma glória.

O fato de que é assim que seremos manifestados com Ele na mesma glória, já vimos nas várias passagens que citei no decorrer destes comentários, porém vou referir especialmente mais algumas. Em 1 Coríntios 15:47, é dito: “O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu”. Qual o terreno, tais são também os terrenos — todos são como seu pai Adão; “e qual o celestial, também os celestiais”, quer dizer, como o que Cristo é, sem falar da Sua divindade — “E assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos a imagem do celestial”. Nós seremos como Ele, seremos precisamente o mesmo que Ele é. Ele diz simplesmente que estaremos ali, no céu, sem mencionar mais detalhes. Contudo, nos declara que seremos como Ele.

Mas primeiro, “Qual o terreno, tais são também os terrenos” — quer dizer, como Adão, pobres, miseráveis pecadores, criaturas mortais, como ele; enquanto que, “Qual o celestial, tais também os celestiais”. Isto é o pleno e absoluto relato do fato.
Então o apóstolo acrescenta a respeito do fato da glória — apresentando-o evidentemente no futuro, não tendo ainda sido cumprido — “assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial”; e continua, “E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção”. Como é dito antes, “Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em ignominia, ressuscitará em glória.”

Vamos agora referir algumas das passagens que mostram como Cristo nos toma para Si mesmo. Sigo os ensinos de toda a Escritura, afim de podermos ficar solidamente firmados no que Cristo nos comunica. Ele diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar. E se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e voz levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também”. Foi para a casa de Seu Pai, mas virá outra vez e nos levará para Si mesmo, para que onde Ele estiver também nós possamos estar. Foi então com um corpo — subiu glorioso — sem que todas as coisas estejam ainda postas debaixo de Seus pés, mas coroado de glória e de honra, e diz aos Seus discípulos, deveis esperar e ocupar-vos até que eu venha outra vez. Mas hoje, antes que Ele venha, vemos o que vai fazer conosco, que estamos na mesma glória: “Virei outra vez e vos levarei para mim mesmo”. Como dissera no capítulo anterior, “Se eu te não lavar, não tens parte comigo”. Era como se tivesse dito: Eu não posso ficar convosco agora, como Rei e Messias, mas eu vos lavo para que possais estar aptos a reinar Comigo quando eu vier outra vez. Portanto, sou ainda vosso servo no sentido de intercessão, e, por meio da eficácia da Minha intercessão, vos lavarei diariamente, porque, para terdes parte Comigo no meu reino, tendes de ser como Eu mesmo.

Da mesma maneira, temos o que pode ser chamado a pública proclamação deste fato em 1 Tessalonicenses 4: “aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele. Dizemo-vos, pois, isto, pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor”.

Vede como o apóstolo esperava constantemente a vinda do Senhor. Alguns têm-se aventurado a dizer ousadamente que Paulo cometeu um erro em esperar a vinda do Senhor nos seus dias. Mas são eles que cometem um terrível erro. Nunca foi revelado quando Cristo havia de vir, e Paulo não intentou sabê-lo. Mas sabia que o tempo viria em que nós estaríamos sempre esperando por Ele, em vez de dizer o meu Senhor tarde virá, e começarmos portanto a comer e a beber com os temulentos e a espancar os nossos conservos. Foi por isso que Paulo se colocou nessa classe, “nós, os que ficarmos vivos, para a vinda do Senhor”. E qual foi o efeito disso? Viveu como um homem que esperava Cristo todos os dias, e quando Cristo vier, ele receberá o fruto disso, enquanto que aqueles que preferem adiar a expectativa da vinda de Cristo, e não a esperam, permitindo que os seus corações se entreguem à cobiça e coisas semelhantes, receberão também o fruto de suas ações.

É dito que a ocasião da segunda vinda de Cristo não deve ser revelada. Paulo teve uma revelação de que em breve morreria, e sabia-o. Pedro teve também uma revelação de que em breve deixaria este tabernáculo e, evidentemente, sabia-o. Mas não lhes foi revelado quando Cristo havia de vir. Por isso, Paulo diz, “Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados”, pois Cristo venceu a morte.

Podemos morrer todos antes da vinda de Cristo — ninguém sabe o momento da Sua vinda —; todavia podemos empregar a linguagem, “nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor”. É dito do homem que pensa que Cristo tarde virá que se entrega ao que é mau, espancando os seus conservos, comendo e bebendo com os ébrios. E é dito que, tardando o esposo, todas as virgens, tanto as prudentes como as loucas, tosquenejaram e adormeceram; quer dizer, a igreja perdeu o sentimento da expectativa atual de Cristo. Até mesmo os servos prudentes tiveram de ser despertados, e foi um ato de misericórdia acordá-los a tempo, porque Cristo é sempre fiel para com o Seu povo.

Mas esperar pe uma característica do servo fiel. A igreja de Filadélfia esperava a vinda de Cristo, e isto é chamado a palavra da Sua paciência — “Como guardaste a palavra da minha paciência.”

A passagem de Tessalonicenses continua: “Nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro” — ninguém mais. Trataremos disto mais adiante, por agora quero apenas frisar o fato. O alarido, a voz de arcanjo, e a trombeta de Deus, não devem ser tomados como a voz de Deus a todo o mundo para despertar os justos e os ímpios. O “alarido” é um termo militar; qualquer que seja hoje o termo preciso equivalente a esse, é o que segue a expressão, “à vontade”. Era usado primeiramente para os remadores no trireme, e mais tarde como um termo militar. Quando os soldados são deixados para se deslocarem à sua vontade, e então são chamados de repente para as fileiras, é a ordem que lhes é dada para esse fim, a que corresponde a palavra aqui empregada “alarido”. Mas as únicas pessoas que ouvem o alarido são “os mortos em Cristo”, e Cristo é apresentado como reunindo desta maneira as Suas próprias tropas. “os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras.”

Aqui, pois, temos os seus pormenores. O Senhor declarou que virá para nos levar para Si mesmo; e agora o apóstolo, por meio da revelação que lhe foi dada, explica como terá lugar a Sua vinda. O Senhor virá e nos chamará para O encontrarmos nos ares.

A passagem de 1 Coríntios, que já li, refere-se ao mesmo acontecimento, quando diz, “ Depois os que são de Cristo, na sua vinda. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias” (1 Cor. 15:23). O fato específico aqui não é a ressureição dos mortos, mas uma ressureição de entre os mortos. A ressurreição de Cristo não foi simplesmente “dos mortos”, mas uma ressurreição de entre os mortos. Esse foi o seu pleno caráter, uma ressurreição de entre os mortos; e porquê? Porque o deleite do Pai estava nEle. E por que somos nós da mesma maneira tomados de entre os mortos? Porque todo o Seu prazer está em nós. E portanto a seu próprio tempo o Senhor vem (— não é dito que aparece —) e chama-nos para estarmos sempre com o Senhor, para tomarmos o nosso lugar associados com Cristo e ter parte a glória que já vimos referida nas palavras, “E assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial.”

Mas nós não somos convidados a esperar a morte — podemos morrer, e é também uma coisa bem-aventurada morrer; mas nós devemos esperar e aguardar e, como é declarado em 2 Coríntios 5:4, “não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida” — para que o poder de Cristo sobre a morte possa ser plenamente manifestado. Ele toma para Si homens mortais, quer sejam mortos ou vivos: se tiverem vivos, transfere-os para a glória, sem terem de morrer; se estiverem mortos, ressuscita-os. Esta é a primeira coisa que Ele faz: ressuscita primeiro os mortos, e então os vivos são transformados; e todos juntos vão ao Seu encontro nos ares. Deus predestinou-nos para servos “conforme à imagem de seu Filho; a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rom. 8:29). E, como temos visto, o Senhor diz: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste”. Esta é, pois, a nossa porção das coisas celestiais.

E se nos voltarmos para Colossenses 3, veremos que, quando Cristo Se manifestar, nós nos manifestaremos nesta glória com Ele e como Ele. Ele terá então vindo e já nos terá levado para Si Mesmo; e então vem para Se manifestar ao mundo, e nós nos manifestaremos com Ele. Recordemos a passagem que eu já citei, que a glória que Lhe foi dada, Ele no-la deu, para que o mundo conheça, etc.

Mas voltando para Colossenses 3, vemos como o apóstolo nos identifica perfeitamente com Cristo. Vejamos primeiro o capítulo 2:20, “Se, pois, estais mortos com Cristo”. Depois no princípio do capítulo três, “se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra; Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Ele está escondido em Deus; Ele é a vossa vida, e a vossa vida está portanto alí escondida. “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória”. Quando Ele se manifestar, nós nos manifestaremos com Ele. Não pode haver separação. Se Ele está escondido em Deus, a nossa vida está escondida em Deus; se Ele se manifestar, nós nos manifestaremos; se Ele se manifesta em glória, nós temos de ser manifestados em glória com Ele. Somos herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo.

Vemos a mesma coisa na 1 Epístola de João — com a diferença que a mesma verdade é apresentada em diferentes formas. “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus” — isto é, que tivessemos o próprio nome de Cristo (que maravilha de amor é este que temos o próprio título de parentesco de Cristo) — “Por isso o mundo não nos conhece; porque não o conhece a ele”. Mostrando assim que temos o mesmo lugar com Ele. O Senhor diz: “Vou para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” — cumpri a vossa redenção e como resultado tenho-vos posto no mesmo lugar Comigo. “Anunciarei o teu nome a meus irmãos, cantar-te-ei louvores no meio da congregação”. “Por isso o mundo não nos conhece, porque não conhece a Ele”. Não é de se maravilhar que o mundo não nos reconheça, se não O reconheceu.

“Amados, agora somos filhos de Deus” — isto é o tempo presente — “e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos.”

Ainda quanto a esta manifestação com Ele, vou referir-me ao Livro de Apocalipse; mas antes de o fazer, podemos, por um momento, prestar a nossa atenção a Zacarias 14, onde é dito que o Senhor virá e todos os Seus santos com Ele, e os Seus pés serão postos nesse dia sobre o Monte das Oliveiras.
O anjo refere-se a isto quando, depois da ascensão de Cristo desde o Monte das Oliveiras, disse aos discípulos, “Porque estais olhando para o céu? Esse Jesus que de entre vós foi recebido em cima no céu, há de vir como para o céu o vistes ir”. Também no versículo 14 da Epistola de Judas, vemos que “destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos”.

Aqui os santos estão associados com Cristo na execução do juízo. “Eis que é vindo o Senhor com milhares” — mais propriamente miríades, quer dizer, um número imenso — “de seus santos; para fazer juízo”. Isto mostra como nós estamos inteiramente associados com Cristo. E que algum lugar nos impõe isto! Contudo a Escritura é tão simples e clara sobre este ponto que não pode ser mal interpretada.

Encontramos a mesma verdade em 1 Tessalonicenses 1. Prefiro citar o maior número possível de passagens e alongar-me sobre elas, para que a nossa fé possa ficar firme não na sabedoria humana, mas no poder de Deus.

Os Tessalonicenses sofriam terríveis perseguições; e o apóstolo disse-lhes: “nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa paciência e fé, e em todas as vossas perseguições e aflições que suportais; prova clara do justo juízo de Deus, para que sejais havidos por dignos do reino de Deus, pelo qual também padeceis; Se de fato é justo diante de Deus que dê em paga tribulação aos que vos atribulam, e a vós, que sois atribulados, descanso conosco, quando se manifestar o Senhor Jesus desde o céu com os anjos do seu poder, com labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo; os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, longe da face do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos, e para se fazer admirável naquele dia em todos os que crêem” (2 Tess. 1: 4 – 10). Ele vem com milhares ou miríades de Seus santos.

Encontramos uma descrição distinta da sua vinda dada em figura no Apocalipse. No capítulo 17 é dito: “Estes combaterão contra o Cordeiro”. Todos os reis da terra se encontrarão, não em benção, ligados com Cristo, mas em guerra aberta com o cordeiro, ligados com a besta. “Estes combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão os que estão com ele, chamados, e eleitos, e fiéis”. Outras passagens mostram-nos que os anjos estarão com Ele, mas não é dos anjos que aqui se fala como estando com Ele. Os anjos podem ser descritos como “fiéis” e “eleitos”, porque a Escritura fala dos anjos “eleitos”, mas estes que estão com Ele são os “chamados”, e são os santos que são “chamados pela graça de Deus”. Portanto, estas pessoas “chamadas”, que estão com Ele, são os santos.

Havendo visto quem eles são, volvemos agora os olhos para o capítulo 19: — “E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça.

Temos visto claramente que Ele vem para julgar os ímpios na terra — uma coisa geralmente esquecida, que há de haver juízo tanto dos vivos como dos mortos. “Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem” (Mat. 24: 38-39).

“E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo. E estava vestido de veste tingida em sangue; e o nome pelo qual se chama é A Palavra de Deus. E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro”  — o que, diz ele noutra passagem, é a justiça dos santos. Termino agora com a citação de passagens.

Já tivemos ocasião de ver, através de todas as passagens reproduzidas, que a vinda do Senhor era o assunto principal mantido perante a Igreja como sua esperança na Escritura, e que esta esperança se ligava com toda a sorte de pensamentos e sentimentos que os santos tinham, que eles eram até mesmo considerados como havendo sido convertidos para esperar o Filho de Deus; que todas as outras doutrinas da Escritura estavam ligadas com ela, que o que caracterizava uma igreja decadente era o pensamento de que “o Senhor tardava a Sua vinda”, e que o que os despertava era o brado “Aí vem o esposo.”

E agora temos visto que o Senhor nos revela, com sabedoria e prudência, o Seu plano; isto é, “De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:10) — reconciliando-as todas em Cristo —, não meramente para o nosso bem egoísta, mas como plano para glória de Cristo; e com este fim Ele tem nos associado com Cristo no lugar que Ele toma como Cabeça sobre todos, de modo que, sendo associados com Ele como herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo, temos a herança com Ele; que, quando Ele a toma, nós a teremos com Ele; que quando Ele vier, nós viremos com Ele; que, não obstante haver sido apresentado na terra entre os Judeus, segundo as promessas de Deus, e eles não O terem recebido, Ele tomou outro lugar, o de Filho do Homem — lugar que toma na Sua ressurreição e na Sua glória, e nos arrebatará para a termos com Ele quando chegar o tempo; e não somente nós, mas que todos os santos terão com Ele; que ainda não vemos que todas as coisas Lhe estejam sujeitas, mas vemos Jesus coroado de honra e glória, e esperamos, como Ele, até que os Seus inimigos sejam postos por escabelo de Seus pés; que quando esse tempo vier — quando será ninguém sabe; Deus não o revelou — a primeira coisa que Ele fará será ter o Seu corpo; Ele não vai ser Cabeça sem o corpo, mas nos arrebatará para O encontrarmos nos ares; que virá e nos levará para a casa de Seu Pai; que esse é o nosso lugar, e que Ele terá ali tudo em ordem para nós — tem de ter os Seus herdeiros com Ele; que não pode dar um passo, quando toma posse da Sua herança, sem ter os Seus herdeiros, o Seu corpo, a Sua noiva Consigo.

Em Apocalipse temos primeiro as bodas do Cordeiro e então vemos sair do céu o Cordeiro seguido pelos Seus exércitos. São a esposa do Cordeiro — é o que eles são — porque o Cordeiro tem de a ter associada Consigo, a Sua adjutora, para partilhar da Sua herança. Não tomou ainda o Seu grande poder e o reino. Não vemos ainda que todas as coisas Lhe sejam sujeitas.

Mas quando Ele vier nos levará para estarmos com Ele, porque estamos perfeitamente associados com Ele. Quando Ele se manifestar nós nos manifestaremos com Ele. Quando executar o juízo nós O acompanharemos — isto é, quando exercer juízo sobre o mundo, esmagando os ímpios com a vara de ferro e reduzindo-os a cacos como se faz a um vaso de barro. Isto não é, de modo nenhum, a parte mais bem-aventurada que temos na Sua herança. A parte mais feliz é estarmos com Ele. Mas quando Ele se manifestar, o mundo ver-nos-á Consigo. Vem para ressuscitar os santos que morreram e afim de os levar para estarem com Ele; e então quando se manifestar nós seremos manifestados com Ele e “traremos também a imagem do celestial, assim como trouxemos a imagem do terreno.”

No entanto, enquanto Cristo está assentado à destra de Deus, Ele enviou o Espírito Santo para juntar todos os Seus herdeiros. Agora eles têm de levar a cruz — quando vier o reino terão o reino e a glória. Mas, até esse tempo, enquanto está assentado à destra de Deus, o Seu povo tem de levar a cruz, e é só pelo poder do Espírito Santo de Deus que alguém pode segui-lO. Qualquer que seja a glória que Ele tem, no tempo da glória Ele associa-nos nela Consigo, e, como consequência, nós reinaremos com Ele — os que estamos agora reconciliados Consigo. E quando Ele vier, não vem para nos julgar. “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação.”

E agora, prezado leitor, quero apenas perguntar-te, com quem estás associado? Estás associado com Cristo, rejeitado pelo mundo, e agora assentado à destra de Deus? Estás, por intermédio do Espírito Santo, associado em espírito com Cristo? Ou estás associado com o mundo que Ele julgará na Sua vinda com todos os Seus santos?

Com quem estás associado, enquanto Cristo está ausente, havendo sido rejeitado e dito, ocupa-te até que eu venha, quando partiu para receber um reino e uma glória muito melhor do que aquela de que foi rejeitado? Com quem estás associado? Tens de andar por este mundo, tens de passar por ele; crês realmente que satanás é o deus deste século e príncipe deste mundo que rejeitou Cristo, e vives realmente como se cresses isto? Crês que Cristo está assentado a destra de Deus e que virá outra vez a fim de levar para Si mesmo, a fim de partilhares Consigo as mesmas bênçãos na casa de Seu Pai e para veres a glória do Pai e teres parte no Seu amor? Estamos nós fazendo alguma coisa que merece a Sua aprovação? Existe em nosso coração aquele amor que se assemelha à confiança de uma criança em seu pai, e que mostra que somos filhos por adoção? Existe em nós alguma coisa que nos identifique com aqueles que são herdeiros dessa bem-aventurança e glória? O mundo não O conhece; o mundo não nos conhece. Podemos afirmar isso? Somos semelhantes a Ele no lugar que temos neste mundo? Quando Cristo esteve no mundo, não viram nEle beleza para que o desejassem. Como se passam as coisas conosco? São as coisas que se não vêem ou as coisas que se vêem que têm poder em nossos corações? Cristo não é visto; habita Ele em nossos corações pela fé, de forma a ser a nossa porção? Se é assim, então quando Ele Se manifestar, nós nos manifestaremos com Ele em glória, e muito melhor que isso será sermos arrebatados para estarmos para sempre com Ele. Que o Senhor nos torne capazes de podermos esperar por Ele e dizermos sempre, “Ora vem Senhor Jesus”. Que possamos ter o nosso tesouro, a nossa parte e o nosso coração em associação e identificação com Ele. Um poucochinho e aquele que há de vir virá e não tardará. Só Ele sabe o tempo que levará a juntar todos os santos para Si.

J.N.D.

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