Revista Leituras Cristãs

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O Incompreendido – Da vida de José (Gênesis 37)

Em Gênesis encontramos um considerável número de capítulos com a descrição da vida de José. Ao mesmo tempo, sua história está intimamente entrelaçada com a de seu pai. No capítulo 37:2 se lê:

“Estas são as gerações de Jacó. Sendo José de dezessete anos, apascentava as ovelhas com seus irmãos”.

A partir desse momento, José desempenha o papel principal na vida de Jacó. Na realidade, não é assim também que a história de cada homem só tem seu início no momento em que outro José, o Senhor Jesus, começa a desempenhar o papel decisivo em sua vida? A história de Jacó se torna aqui a história de José.

José tem um bom relacionamento com seu pai

No pano de fundo escuro do que é dito dos irmãos de José, o exemplo deste brilha claramente. Em sua juventude ele estava com os filhos de Bila (Dã e Naftali) e Zilpa (Gade e Aser). Ao conviver com estes irmãos, José não estava exposto a uma boa influência. A má companhia corrompe os bons costumes. Foi uma graça especial que José permaneceu firme. Bila e Zilpa, aliás, foram concubinas de Jacó; respectivamente as servas de Raquel e Lia (cf. Gênesis 30).

Esses filhos tinham uma má reputação. Esse é o significado das palavras no versículo 2:

“José trazia más notícias deles a seu pai”.

Em outras traduções lemos “má fama deles” e “más conversas dos irmãos”. Sua má conduta era de conhecimento geral; e isso afetava negativamente a Jacó.

Com certeza José ficava triste com isto; isso o incomodava. O que ele deveria fazer? Ele deveria relatar isso a seu pai? Sim, ele não viu nenhum outro caminho.

Aqui aparece um traço de caráter muito claro do jovem José: em vez de agir como seus irmãos, ele toma uma postura clara em relação ao mal e testemunha contra ele. José era, assim como Jacó o chamou em seu leito de morte, “separado de seus irmãos” (Gênesis 49:26).

Confiança nos pais compensa; por meio disto se alivia a própria consciência. E, além disso, a confiança é a base para um bom relacionamento mútuo entre pais e filhos. Para isso, ambas as partes têm sua responsabilidade.

O último versículo do Antigo Testamento se ocupa com uma relação conturbada entre pais e filhos. Malaquias anuncia profeticamente, que Elias “converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais”. Se pais e filhos se afastam mutuamente, o dano causado é permanente.

Deus revela, em sonhos, Seus pensamentos a José

Antes de tudo, uma breve palavra sobre os sonhos na Bíblia. Embora Deus tenha muitas vezes se manifestado em sonhos (Números 12:6; Jó 33:14-15), encontramos advertências contra a insensata valorização dos sonhos (Jó 20:8-9; Salmo 73:19-20; Isaías 29:7-8; Eclesiastes 5:3,7).

Em tempos de decadência, sonhos não eram frequentes (1 Samuel 3:1; 28:6,15). No futuro, os sonhos aumentarão novamente, como prova da restauração nacional de Israel no Reino Milenar (Joel 2:28). Hoje não precisamos de sonhos, temos a Palavra de Deus e o Espírito Santo, e assim podemos conhecer a mente de Deus.

Nos versículos seguintes (Gênesis 37:5-11) aprendemos como Deus revela a José, em dois sonhos, coisas futuras que diziam respeito a ele mesmo.

José tinha dezessete anos; nesta idade, frequentemente, são tomadas decisões para toda a vida. Além da questão sobre a formação profissional, surge, para cada um, a pergunta se ele está disposto a servir ao Senhor Jesus com todos os seus dons. Isso pressupõe, naturalmente, que alguém experimentou uma conversão genuína. Para servir ao Senhor de forma eficaz, é indispensável aprender a conhecer a Palavra de Deus; e por meio disso reconhecer o caminho de Deus para si.

Por meio desses sonhos, Deus prepara José para a tarefa na qual Ele quer usá-lo no futuro.

José contou os sonhos a seu pai e a seus irmãos. Contudo, ele colhe a incompreensão de seu pai, e seus irmãos o odeiam e ficam com ciúmes.

O ciúme (ou inveja) é um pecado terrível — na verdade, foi uma das razões pela qual o Senhor Jesus foi entregue a Pilatos pelos maiorais do Seu povo, para ser condenado.

Mais tarde, o pai de José e seus irmãos experimentaram a exatidão dos sonhos de forma explícita.

No que diz respeito ao ódio dos irmãos contra José, houve três causas principais:

  • A consciente e ativa separação de José do mal (v. 2)
  • O amor de seu pai por José (v. 4)
  • O favor de Deus, que deu a José revelações (v. 5); e também, ligado a isso, a posição de primazia, a qual Deus havia dado a José no meio de seus irmãos (v. 8).

Não é sem razão que a Palavra de Deus relata em primeiro lugar esta clara separação do mal e menciona, somente depois, como José recebeu os sonhos.

Nisto se torna claro um princípio muito importante que sempre é encontrado na Palavra de Deus, que, sem separação do mal, não há um real discernimento dos pensamentos de Deus. Isto se aplica tanto para a compreensão da Palavra de Deus quanto para o reconhecimento do caminho que Deus nos quer levar pessoalmente.

Jacó envia José à seus irmãos A prontidão de José

Voltamos agora para a sequência no curso dos acontecimentos: Os irmãos de José haviam saído para apascentar o rebanho de seu pai. Em seu percurso eles vieram a Siquém, onde, no passado, a família já tinha passado algum tempo (Gênesis 33:18 a 34:31). Ali, Simeão e Levi haviam assassinado os homens da cidade e haviam feito “cheirar mal” a Jacó, como ele mesmo disse (cp. 34:30). O que atraiu os irmãos de novo para lá? Os eventos que se seguem neste capítulo deixam claro que não foi um bom caminho que os irmãos tinham tomado agora.

Parece que Jacó percebeu isso e, portanto, toma a decisão de enviar José. Imediatamente, este se declarou disposto, dizendo:

“Eis-me aqui” (cp. 37:13).

Isto nos lembra de Isaías 6:8, onde Deus chama o profeta e lhe faz a pergunta: “A quem enviarei?”; e Isaías responde imediatamente: “Eis-me aqui, envia-me a mim.” Com razão estas palavras são aplicadas ao Senhor Jesus quando Ele foi enviado por Deus a este mundo (cf. Salmo 40:7-8). O evangelho de João declara aproximadamente quarenta vezes que o Pai enviou o Filho.

A imediata prontidão de José é mais uma prova do bom relacionamento entre ele e o seu pai. E isto é ainda mais admirável, uma vez que José sabia a atitude de seus irmãos a seu respeito. Não lhe passou despercebido que eles o odiavam e que tinham ciúme dele. José não poderia ter dito como Moisés:

“Envia pela mão daquele a quem tu hás de enviar” (Êxodo 4:13)

— querendo com isso dizer: “Envia a quem tu quiseres, mas não a mim”?

Obediência e Amor

José parte de Hebrom¹ e chega a Siquém. Ele procurou incansavelmente pelos seus irmãos nos campos em redor, e não os achou. Ele andava vagando; estava perplexo. Um homem o encontrou e perguntou o que procurava. Dele recebe a informação de que seus irmãos seguiram para Dotã (vv. 14-17).

Neste ponto fica claro que a obediência de José foi marcada por um amor sincero a seu pai. Em Siquém, José poderia ter pensado:

“Meu pai me mandou a Siquém. Não encontrei meus irmãos ali; meu dever foi cumprido. Agora volto para casa”.

Humanamente isto seria perfeitamente compreensível. Mas o amor não desiste. José amava seu pai e também seus irmãos, apesar do ódio deles. Isto se torna evidente nos próximos capítulos, através das suas ações para com eles. Mas com certeza José os amava porque eram os filhos de seu pai, e Jacó os amava.

Se José tivesse voltado de Siquém, teria cumprido a ordem de seu pai literalmente, porém não se poderia falar de um amor sincero a seu pai.

Obediência e amor devem estar unidos de forma inseparável.

Algumas passagens do Novo Testamento elucidam isso de forma clara:

João 14:21,23,31

“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama… Se alguém me ama, guardará a minha palavra… mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou”.

1 João 2:5

“Mas qualquer que guarda a sua palavra, o amor de Deus está nele verdadeiramente aperfeiçoado”.

Amor sem obediência não é possível, e obediência sem amor é frio e não tem valor algum para o Senhor Jesus.

Tal obediência leva a um caminho perigoso, e gera uma mentalidade farisaica e legalista que se satisfaz com o cumprimento da letra. Que belo exemplo José nos dá neste ponto.

O ódio dos irmãos de José chega ao ápice

Um novo ato começa; podemos imaginar a cena. Lá em Dotã os irmãos de José apascentam o rebanho. De repente, um deles vê José vindo ao longe, e chama os outros. Todos olham na direção sul. Essa é uma oportunidade única; agora poderiam aniquilá-lo. Um sugere que o matassem; seus rostos assumiram um traço obscuro. Então chegam a um acordo.

“José não nos humilhou e feriu com seus sonhos? Deveríamos nos curvar diante dele!? Vamos mostrar para este sonhador! Agora vamos ver o que será dos seus sonhos. Ao nosso pai, diremos que um animal o devorou.”

Mas então Rúben levanta a sua voz:

“Não podemos fazer isso; não podemos matá-lo! Vamos aniquilá-lo de outra forma. Vamos lançá-lo em uma destas covas profundas”.

José se aproxima cada vez mais. Rúben quer tirá-lo mais tarde da cova, e providenciar a volta dele para o pai. Os irmãos aceitam sua sugestão? Sim, eles concordam.

Agora José chega e cumprimenta gentilmente a seus irmãos. Ele está contente de finalmente tê-los achado e pergunta pelo bem-estar deles. Eles estão bem? Estão em paz? Então lhes transmite as saudações benevolentes do pai. Mas não lhe escapa que seus irmãos se comportam de modo muito reservado para com ele. José se assusta, pois de repente o agarram e um lhe arranca a túnica; outros o pegam e o arrastam. Eles agem rápido. José não consegue falar uma palavra.

“Não pode ser verdade que meus irmãos me tratem assim. Não tem um sequer que se coloque do meu lado? Não fiz apenas o que meu pai pediu? Como Deus pode permitir uma coisa destas?”

— tudo passa pela sua cabeça. Ele está pasmo.

“Que querem fazer comigo? Será que querem me matar?”

Ele crava os olhos em seus irmãos; o horror toma conta dele e a angústia da sua alma podia ser visto em seus olhos. Este olhar seus irmãos nunca mais iriam esquecer; de algo assim não se podiam livrar. José implora; assegura-lhes sua afeição, porém foi tudo em vão (cf. cp. 42:21).

Um ruído abafado e José está caído, seminu no fundo da cova, que, felizmente, não tinha água.

Os irmãos voltam ao lugar onde José os havia encontrado e se sentam para comer. Estariam comendo aquilo que José havia trazido do pai? O que aconteceu há pouco parece não incomodá-los.

Dois mil anos mais tarde os príncipes do povo levariam o Messias à morte, e isto na véspera da Páscoa, o dia da preparação, no qual todas as providências para a festa eram tomadas. Como não queriam se contaminar, não entraram neste dia no pretório, o palácio do governador romano, Pilatos. Eles queriam poder “comer” a Páscoa com boa consciência (João 18:28). Em sua opinião eles não se contaminariam ao levar à cruz o único Homem sem pecado. Existe alguma insensibilidade maior?

José é vendido para o Egito

Os irmãos de José veem uma caravana de ismaelitas, a caminho do Egito. De repente Judá tem uma ideia: vender o irmão. Evidentemente Rúben não estava presente. Judá usa uma linguagem hipócrita: “Não seja nossa mão sobre ele; porque ele é nosso irmão, nossa carne” (v. 27). Judá apreciava tão pouco a José a ponto de vendê-lo como escravo. Dois mil anos mais tarde, outro Judá² venderia um Homem por “trinta moedas de prata” (Mateus 26:15; cf. Zacarias 11:12-13). Na lei, estava prescrita a pena de morte para quem vendesse pessoas (Êxodo 21:16).

Uma curta negociação: 30, 25 moedas de prata. Não. Se chega a um acordo: 20 moedas de prata. Negócio feito. O dinheiro é pago e José é entregue.

“Com que vamos vesti-lo no lugar da túnica… ?”

Mais tarde, Rúben vem à cova. Que é isso? Ele havia chegado tarde; José não está mais ali! Rúben rasga suas vestes, expressão de uma profunda emoção. Pobre Rúben!

Em Gênesis 49:3-4 ouvimos mais acerca dele, na “benção” de Jacó:

“Rúben, tu és meu primogênito, minha força e o princípio de meu vigor, o mais excelente em alteza e o mais excelente em poder. Impetuoso como a água, não serás o mais excelente, porquanto subiste ao leito de teu pai. Então o contaminaste; subiu à minha cama”.

Ele tinha cometido um terrível pecado, que nos é descrito em Gênesis 35:22.

Rúben não tinha força moral para se colocar claramente do lado de José, embora quisesse ajudá-lo. Ele não pôde trazer José de volta; e também se torna culpado para com ele. É trágico querer algo e não ter força para executá-lo!

“O temor do homem armará laços” (Provérbios 29:25).

Jacó fica sabendo da pretensa morte de seu filho

Os irmãos de José matam um cabrito e tingem a túnica dele com seu sangue.

Seria ironia involuntária que foi um cabrito que eles mataram para enganar seu pai?

Jacó também não enganou seu pai ao matar um cabrito, cuja carne sua mãe preparou um guisado saboroso e com cuja pele ele cobriu suas mãos? Em algum momento a semente que um homem semeou, brota (cf. Gálatas 6:7).

A túnica é apresentada a Jacó, e ele conclui que José foi despedaçado por uma fera. Jacó rasga as suas vestes, assim como Rúben havia feito antes. Ele se veste de pano de saco, expressão de contrição e humilhação. Seus filhos o deixam na crença de que José estava morto e querem consolá-lo apenas na aparência. Comportamento abominável! As palavras: “porquanto com choro hei de descer ao meu filho até à sepultura” (v. 35), evidenciam que Jacó mergulha em uma profunda depressão. Ele não acredita que se alegraria mais uma vez até o dia de sua morte. Uma dor profunda por seu amado filho o atormenta.

O capítulo termina dizendo que os midianitas revenderam José no Egito. Com certeza eles tiveram lucro neste “comércio de escravos”. José só voltaria a ver sua terra natal no funeral de seu pai. O que seria dos seus sonhos?

W. M.

¹ Hebrom significa comunhão; é o lugar da comunhão entre o pai e o filho.

² Em grego significa Judas.

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