Revista Leituras Cristãs

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As Setenta Semanas – Daniel 9

Gráfico extraído do livro “Estudo sobre o livro de Daniel” disponível em loja.boasemente.com.br

O principal aspecto distintivo deste capítulo que agora há de ocupar a nossa atenção é a grande profecia das setenta semanas. Sir Edward Denny, um notável estudioso da profecia do século passado, designou este capítulo como “a coluna vertebral da profecia”. E este título parece bem empregado, porque, se as setenta e duas semanas forem mal interpretadas, então se fará necessário um esforço para harmonizar todos os demais escritos proféticos com essa interpretação errônea. Se, porém, tivermos um entendimento correto do ensino deste capítulo, poderemos prontamente perceber como todas as profecias, sem forçar coisa alguma, se encaixam no lugar certo e estão intimamente ligadas a esta maior de todas as profecias temporais.

Nos versículos iniciais deste capítulo, no primeiro ano do reinado de Dario, vemos um homem devoto curvado sobre a palavra profética nas Sagradas Escrituras. Daniel não tinha nada parecido com uma Bíblia completa, da forma como temos hoje, mas valorizou aquilo que possuía, examinando-o diligentemente. De fato, o último livro que havia sido acrescentado à Bíblia foi o livro de Ezequiel. Não sabemos com certeza se esse texto alguma vez chegou às suas mãos, porém sabemos com certeza, a partir desta passagem, que Daniel tinha acesso ao livro de Jeremias. Quando o estudava cuidadosamente, notou que duas vezes no livro está escrito que Deus cumpriria setenta anos com respeito às desolações de Jerusalém.

Então, olhando para trás e somando todos os anos que ele vivera na corte de Nabucodonosor, mais os dias passados durante o período das dificuldades na Babilônia, seguidos do triunfo dos medos e persas, Daniel evidentemente percebeu que os setenta anos haveriam de chegar brevemente ao fim. Por causa disso, o dia da libertação dos judeus precisaria estar bem próximo. Provavelmente, ele mesmo podia rememorar quase sete décadas, porque fora levado cativo no reinado de Jeoaquim quando era apenas um jovem, e já se tornara um homem idoso.

Descobrimos que o estudo da profecia exercitou o coração e a consciência de Daniel. Ele não tinha interesse na profecia apenas por curiosidade intelectual. O mero cálculo de tempos e épocas não podia satisfazer esse devoto homem de Deus, mas quando ele aprendeu da sua Bíblia que se aproximava o tempo em que o povo de Judá seria restaurado à sua terra, isso mexeu com ele até as profundezas de sua alma e o levou a ficar de joelhos. Daniel notou que, quando Deus está prestes a operar, Ele começa exercitando o Seu povo, para que as pessoas sejam restauradas na sua alma, caso se tenham afastado dEle. E assim resultará bênção do fato de elas terem sido levadas ao lugar de autojulgamento e humilhação diante dEle.

Note que Daniel não começa acusando os judeus de agir tão perversamente em dias passados nem acusando os seus contemporâneos naquele momento solene da história de Israel, mas ele volta o seu rosto ao Senhor, “com oração e súplicas, com jejum, e saco e cinza” (v. 3); saco e cinza — a expressão exterior do profundo e sincero arrependimento. O texto diz que ele orou ao Senhor, seu Deus, e fez a sua confissão:

“Pecamos [plural], e cometemos iniquidades, e procedemos impiamente, e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos e dos teus juízos; e não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que em teu nome falaram” (vv. 5-6).

Ele reconhece a justiça de Deus no julgamento que lhes sobreviera. Ainda assim, ele ousa dizer que ao Senhor pertencem a misericórdia e o perdão, embora eles tivessem se rebelado tão gravemente contra o seu Deus. Em todos os Seus procedimentos para com eles, Deus havia, antes de tudo, confirmado as Suas próprias palavras e manifestado a fidelidade de Seu testemunho dado por meio de Moisés, Seu servo.

Quanto nós podemos aprender de tudo isso! Se olharmos ao nosso redor e virmos o fracasso na Igreja, a carnalidade e o mundanismo que prevalecem por todos os lados, não nos alegremos em expressar o nosso julgamento sobre isso. Recordemos, pois, que nós também fazemos parte dessa Igreja que tem falhado. Não podemos separar-nos dos outros cristãos. Precisamos tomar o nosso lugar juntamente com eles e inclinar a nossa cabeça na presença de Deus, reconhecendo que nós pecamos.

Não procuremos assentar-nos em julgamento sobre os nossos irmãos cristãos que talvez não vejam tão claramente quanto nós, mas cujo amor e fidelidade para com o Senhor Jesus podem bem ser um exemplo digno de ser imitado. Não; antes, tomemos o lugar de Daniel, em auto-humilhação e arrependimento na presença de Deus. Quando chegarmos a essa condição, então poderemos contar com a Sua bênção e, esperançosamente, olhar para Ele à espera de certa medida de restauração.

É isso o que resplandece de forma tão bela nesse profeta. Ele se identifica a si mesmo — embora fosse alguém de fidelidade singular (de fato, talvez a pessoa mais devotada de sua geração) — com a sua nação fracassada e em fracasso.

Em simplicidade e fé, Daniel levantou os olhos a Deus, rogando que Ele aparte a Sua ira e o Seu furor de Jerusalém e fizesse resplandecer o Seu rosto sobre o santuário assolado (vv. 16-17).

Notemos a sinceridade e a ternura dos versículos 18 e 19, que encerram a comovente petição:

“Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos, e olha para a nossa desolação, e para a cidade que é chamada pelo teu nome, porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias. Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e age sem tardar; por amor de ti mesmo, ó Deus meu; porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome”.

A uma oração dessa natureza não poderia faltar resposta. Enquanto Daniel ainda falava e fazia a sua confissão, o anjo Gabriel “veio, voando rapidamente, e tocou-me, à hora do sacrifício da tarde” (v. 21), isto é, à mesma hora em que o cheiro suave do sacrifício da tarde — apontando para o sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo — teria ascendido a Deus se Jerusalém não estivesse em ruínas. Gabriel declara ter sido enviado para dar a Daniel a habilidade e o entendimento sobre os tempos previstos por Deus no tocante à bênção de Israel.

Leia os versículos 24 ao 27 cuidadosamente.

Considerando essa profecia, é importante notar, antes de qualquer coisa, que o período de tempo das setenta semanas se refere claramente a anos. Daniel aprendeu das Escrituras que o Senhor cumpriria setenta anos com respeito às desolações de Jerusalém. Como resposta à sua oração, porém, Deus lhe faz saber que em setenta semanas, ou seja, unidades de sete anos, toda a profecia com respeito ao Seu povo Israel seria cumprida.

A palavra traduzida aqui por “semanas” não se refere necessariamente a semanas de dias, mas é um termo genérico (assim como a nossa palavra “dúzia”), significando uma unidade de sete, e pode ser aplicada a qualquer que seja o assunto a ser considerado.

No mapa, usei as palavras héptadas como equivalente, para evitar confusão de expressões.

Também é importante notarmos que esses setenta vezes sete, ou quatrocentos e noventa anos, são separados do período de tempo integral referente ao povo de Daniel e à sua santa cidade, Jerusalém.

Por isso, as setenta semanas apenas estão correndo enquanto houver um remanescente em Jerusalém reconhecido por Deus como o Seu povo.

Isso nos leva a um terceiro ponto, que muitos não devem ter notado. O ciclo das setenta semanas é dividido em três partes. Isto pode ser visto claramente quando se contempla o mapa.

Primeiro, temos sete unidades de sete, ou seja, quarenta e nove anos. Esse é o período chamado de estreito ou aperto, época em que a cidade e os muros de Jerusalém estavam sendo reconstruídos.

A segunda parte do ciclo consiste em sessenta e duas semanas, ou seja, quatrocentos e trinta e quatro anos, depois dos quais o Messias seria cortado e não teria mais nada. Isso deixa ainda uma semana, ou sete anos, para ser cumprida. E esse período não pode ser cumprido até que haja novamente um remanescente de Judá, reconhecido por Deus como Seu povo, na cidade de Jerusalém.

Um ciclo de quatrocentos e noventa anos terminou no cativeiro babilônico.

Então Deus disse que daria outro período igual, cujo término seria diferente. Vamos observar quantas coisas deveriam ser cumpridas antes que esse período chegasse a um fim:

  • a transgressão do povo cessaria
  • seria dado um fim aos seus pecados;
  • a reconciliação ou, mais exatamente a expiação da iniquidade, seria feita;
  • justiça eterna — isto é, o reino milenar — seria trazida;
  • a visão e a profecia seriam seladas por terem sido cumpridas;
  • e o Santo dos Santos seria ungido no futuro templo em Jerusalém.

Ora, é evidente que muitos desses pontos mencionados não foram cumpridos até hoje. Consequentemente, os quatrocentos e noventa anos ainda não se cumpriram. Outra questão é: podemos afirmar exatamente quando começaram as setenta semanas? Sim, vejamos o versículo 25:

“Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas”.

Agora, o envio da ordem de restaurar e edificar Jerusalém nos é relatado em Neemias 2, e não pode haver questionamento referente a datas. O decreto foi dado no mês de Nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes — um ano bem conhecido aos historiadores como 445 a.C.. Observemos que o decreto publicado nos dias de Ciro, cujo relato encontramos em Esdras 1, claramente não é o ponto de partida aqui referido, porque esse decreto se referia unicamente à reconstrução da casa de Deus em Jerusalém, ou seja, do templo de Zorobabel. Nada é dito com respeito à reconstrução da cidade ou dos muros.

Por isso, o ponto verdadeiro de partida é a ordem de Artaxerxes referida aqui pelo anjo. Desde o tempo desse decreto até a vinda do Messias, o Príncipe, haveriam de passar sete semanas e sessenta e duas semanas; somadas, sessenta e nove semanas ao total, ou seja, quatrocentos e oitenta e três anos.

Quarenta e nove anos se distinguem do restante, porque nesse período a cidade e os muros haviam de ser reconstruídos. Essa divisão também ocorre, não tenho dúvidas, para que a nossa atenção se volte ao fato de que os quatrocentos e noventa anos se dividem em três seções e não seguem necessariamente uma ordem cronológica ininterrupta.

É verdade que as sessenta e duas semanas se seguiam imediatamente ao cumprimento das sete semanas, mas isso não altera o fato de que Deus separa claramente as sessenta e duas semanas das sete que haviam de passar antes. Assim, também a última semana — ou seja, os últimos sete anos — é separada de tudo o que aconteceu antes.

Especialistas em cronologia mostraram que a crucificação do Senhor Jesus Cristo aconteceu imediatamente após a expiração dos quatrocentos e oitenta e três anos proféticos, cada um deles com a duração de trezentos e sessenta dias, a partir da data do decreto de Artaxerxes. Se nos referirmos às demais profecias cronológicas presentes nestes livro, torna-se imediatamente evidente, acredito eu, que este é o método correto de contagem.

O “tempo”, “tempos” e “metade de um tempo”, citados em Daniel 7:25 e 12:7, são claramente idênticos aos mil duzentos e sessenta dias de Apocalipse. Eles representam exatamente três anos e meio, como fica evidente ao se fazer uma comparação com os sete tempos em que Nabucodonosor permaneceu afastado dos seres humanos.

Então, ao final das sessenta e nove semanas, o Messias, por Quem todo o Israel havia esperado tanto tempo, finalmente viria, mas somente para ser rejeitado por Seu povo, que deveria tê-Lo recebido com alegria. Até esse tempo, o grande relógio profético marcava, ano após ano, o cumprimento do que temos registrado neste capítulo; mas, com a crucificação do Senhor Jesus Cristo, o grande relógio parou e não se ouve outro tique-taque desde então, nem se ouvirá nenhum até que, em um dia futuro, os judeus sejam restaurados à sua própria terra e um remanescente se encontre entre eles, pronto para reconhecer os direitos do Cristo de Deus.

Por causa da rejeição do seu Príncipe por Jerusalém, Ele os rejeitou. E Ele profetizou, antes mesmo da Sua morte, que a Sua cidade e o templo seriam derrubados e não ficaria pedra sobre pedra. Isso também é predito no versículo 26 deste capítulo:

“o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações”.

Essas palavras descrevem rapidamente a história da Palestina desde a vinda dos exércitos romanos, debaixo de Tito, até a época presente. Jerusalém, e a Palestina como um todo, têm sido pisados pelas nações e o serão “até que os tempos dos gentios se completem” (Lucas 21:24).

Notemos que no versículo 26 não diz que o príncipe viria naqueles dias. De fato, é confirmado claramente que a cidade seria destruída, não pelo príncipe que haveria de vir, mas sim pelo povo dele. O príncipe é aquele terrível caráter que ainda entrará em cena e que reivindicará para si mesmo o poder supremo no tempo dos dez reis do Império Romano — tempo que ainda está para vir, como vimos. Em outras palavras: ele é expressivamente a besta de Apocalipse 13:1 e 17:3.

É ele que se destaca imediatamente no versículo 27. Ele firmará aliança com muitos por uma semana. A septuagésima semana se iniciará quando o povo judeu estiver restaurado em sua terra e cidade, embora em incredulidade, e entre eles for achado um remanescente crente, que reconhece o seu próprio pecado e procura a face do Senhor. Os muitos, a massa apóstata do povo, entrarão em uma aliança com o príncipe, cujo povo anteriormente era o instrumento para destruição de sua cidade. Isto quer dizer que esse grande e blasfemo líder romano garantirá proteção e liberdade de culto religioso a eles durante sete anos. Em troca, eles lhe prometerão lealdade e o reconhecerão como o seu soberano. Na metade da semana (isto é, depois de três anos e meio), ele violará a sua parte da aliança e fará cessar os sacrifícios e oblações ao Senhor. Idolatria da pior categoria lhes será imposta.

O resultado direto será a distinção do remanescente da massa e o início da grande tribulação, cuja duração será de doze meses — “um tempo, e tempos, e metade de um tempo”, ou seja, mil duzentos e sessenta dias.

Podemos ler a última frase: “…e o que está determinado será derramado sobre o assolador” (ACF), ou, como em outra versão: “sobre o assolado”. Aquilo que Deus determinou será derramado sobre a pobre e assolada Judá por causa da sua rejeição ao legítimo Rei e Salvador. E então, quando o cálice deles estiver cheio até a borda pelas terríveis perseguições da besta e do anticristo, esses inimigos mortais de Deus e o Seu próprio povo serão punidos com a eterna destruição da presença do Senhor e da glória de Seu poder. O seu destino é claramente predito em Apocalipse 19:20:

“E a besta foi presa, e com ela o falso profeta, que diante dela fizera os sinais, com que enganou os que receberam o sinal da besta, e adoraram a sua imagem. Estes dois foram lançados vivos no lago de fogo que arde com enxofre”.

Ali, eles são vistos ainda mil anos mais tarde, em Apocalipse 20:10, quando o próprio diabo, o instigador de toda a iniquidade, será lançado no mesmo lago de fogo “onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre”.

Então, por meio de tudo o que contemplamos, fica claro que essa última semana das setenta ainda não se cumpriu. Se fosse diferente, então os judeus estariam agora em sua terra na condição de uma santa e feliz nação¹; o templo deles estaria ungido para o serviço a Deus, as suas transgressões teriam cessado, e os anos de seu pranto teriam terminado. Porém, Deus somente conta o tempo com respeito a Israel, enquanto eles são reconhecidos como Seu povo na terra da Palestina. Todos os anos de sua sujeição ao governo gentílico são vistos como desperdiçados.

Nessa época presente de sua rejeição, Deus toma dentre os gentios um povo para o Nome do Senhor Jesus — a Igreja, que será o Seu corpo e a Sua noiva para toda a eternidade. Quando essa grande obra tiver cessado, então Ele tornará “a levantar o tabernáculo caído de Davi” (Amós 9:11) e o cumprimento das profecias do Antigo Testamento — que haviam sido interrompidas na cruz de Cristo — será retomado.

Enquanto isso, o opressor gentílico caminha com arrogância e orgulho pela terra da Palestina, e o pobre judeu é desprezado e odiado em quase todos os países de sua peregrinação. O Senhor Jesus resume a história da Palestina em uma frase:

“E ouvireis de guerras e de rumores de guerras… mas ainda não é o fim” (Mateus 24:6).

Isto caracteriza toda a dispensação, e continuará assim até o fim. Quando será esse fim? Quando a septuagésima semana começar o seu curso e quando Deus Se dedicar mais uma vez à nação de Israel e começar a cumprir as promessas feitas pelos profetas.

Ele voltará a tocar o pêndulo do grande relógio profético e mais uma vez o fará marcar a hora para a contagem dos anos preparatórios que prenunciam o reino glorioso do Filho do Homem — época essa em que Jerusalém se tornará a capital do mundo e a Palestina será outra vez o jardim do Senhor.

Extratos do livro Estudos sobre o livro de Daniel, cp.9 – H. A. I.
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