Revista Leituras Cristãs

Conteúdo cristão para edificação

Termos Blíblicos – Comunhão

Sob este título temos o propósito de esclarecer algumas expressões que encontramos no texto da Escritura.

Nisto nós não desejamos fazer uma, assim chamada, interpretação “teológica” do termo, mas simplesmente contribuir para a compreensão geral.

Certas palavras que lemos na Santa Escritura, que ouvimos em palestras, pregações, ou talvez nós mesmos usamos, não são compreendidas de imediato por todo mundo.

Um dos motivos pode ser o fato de que certas palavras, no decorrer dos anos, perderam o sentido original através do linguajar “normal”, diário. Quando então esses termos são aplicados no sentido da Escritura Sagrada — em pregações ou escritos — o ouvinte ou o leitor pode ter dificuldades na compreensão daquilo que é dito ou escrito.

Algumas curtas explicações poderão ser de ajuda.

Comunhão

Certamente há muito a dizer (ou escrever) acerca deste termo, especialmente no contexto dos muitos efeitos “práticos” que a comunhão tem e deve ter entre os cristãos. Mas isso não será o assunto dessas linhas — eu gostaria de me limitar a uma explicação simples e mais fundamental do termo.

Comunhão no Antigo Testamento

Já no Antigo Testamento aparece uma palavra, embora não muito frequentemente, que em algumas traduções é reproduzida como “comunhão” ou “ter parte”.

Na tradução de Almeida Corrigida e Revisada Fiel, está como “minha porção” (por exemplo, em Lamentações 3:24).

Também pode ter o mesmo significado que a palavra “comunhão” no Novo Testamento. Mas, mesmo que no Antigo Testamento o termo “comunhão” ocorra pouco ou, dependendo da tradução, não aparece, ainda assim existe como tal.

Pensemos apenas em Enoque, que “andou com Deus” (Gênesis 5:22,24); e Abraão, de quem Deus não queria esconder o que Ele iria fazer (Gênesis 18:17); ou Noé (Gênesis 6:9) e Moisés (Êxodo 33:11).

Definição

Encontramos o termo mais frequentemente no Novo Testamento.

É a tradução de uma palavra grega — koinonia — que significa ter “participação compartilhada com outro” ou koinonos “que tem algo em comum com alguém”. Nesse sentido, o apóstolo João escreve em sua primeira carta:

“E a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo” (cp. 1:3).

Temos, portanto, uma parte comum com Deus, nosso Pai, que nos enviou o Filho do Seu amor e nos atraiu para Ele (João 6:44), e com o Senhor Jesus Cristo, que nos revelou a Deus, Seu Pai.

Assim, somente no Novo Testamento o conceito torna-se um “conceito-chave”: a comunhão é possível apenas no sentido mais profundo, onde conheço bem a alguém, na sua natureza e nos seus pensamentos.

Portanto, a comunhão com Deus só é possível onde Ele próprio permite ser conhecido, porque Ele se revela. E Ele fez isso na Pessoa de Seu Filho, Jesus Cristo, em quem todos os que nEle creem têm a vida eterna e, portanto, têm a vida divina, uma nova natureza. NEle Deus nos elevou à condição de filhos, levando-nos a uma relação imperdível consigo mesmo. Com base em tal relação, podemos conhecê-Lo e, por princípio, ter comunhão com Ele (1 Coríntios 1:9).

Comunhão com Deus

Em que se evidencia essa parte comum com Deus?

Deus nos revelou e nos comunicou em Sua Palavra, o Seu amor e graça, Seus pensamentos, Sua alegria em Seu Filho amado, Suas intenções — as quais estão todas, sem exceção, relacionadas com Seu Filho, para que possamos conhecê-las e nos alegrar igualmente nelas, podendo admirá-las e adorar.

O Senhor Jesus mostrou-nos o Seu amor pelo Pai, Sua devoção a Ele, Sua obediência, Seu sacrifício, Sua alegria na eterna comunhão com o Pai: também podemos conhecer isso, contemplar em adoração, e nos alegrarmos nEle.

Se fizermos isso — e o Espírito Santo quer nos conduzir exatamente a isso — então, temos uma parte comum, sim, comunhão com o Pai e Seu Filho, Jesus Cristo, “para que o vosso gozo se cumpra”, conforme João escreve em 1 João 1:4. O Espírito Santo efetua essa comunhão e Ele a mantém viva; por isso o apóstolo Paulo também fala da “comunhão do Espírito Santo” (2 Coríntios 13:14).

Experimentar a comunhão – não sem santificação

Agora não será difícil entender que o gozo da comunhão com Deus, nosso Pai, e com o Senhor Jesus só é possível se “vivermos de acordo com Ele”, isto é, de modo santo, como Ele é santo.

“E que comunhão tem a luz com as trevas?” (2 Coríntios 6:14, veja também 1 João 1:6).

Isso também significa que estamos dispostos a pensar em tudo como Deus pensa — estamos dispostos a adotar os padrões de Sua Palavra. Nossa nova natureza faz exatamente isso. Infelizmente, porém, com muita facilidade permitimos em nossas vidas outros pensamentos (e outros comportamentos, palavreado, agir e deixar de agir), de modo que pensamos e agimos “independentes” de nosso Senhor. Um irmão escreve a respeito:

“Um único pensamento, que apenas lança uma sombra passageira sobre nossa alma, é suficiente para interromper a comunhão que estamos experimentando. Só a recuperamos mediante auto-juízo, confessando aquilo que a interrompeu”.

Se, então, aplicarmos o padrão da Palavra de Deus para nossas vidas, então teremos de olhar uma e outra vez para o próprio Senhor Jesus, porque Ele seguiu em perfeição Seu caminho, de acordo com esse padrão. Então ouviremos Sua conclamação: “Segue-me!”.

Na Sua presença aprendemos o “andar” que agrada a Deus:

“Aquele que diz que está nele, também deve andar como Ele andou” (1 João 2:6).

Na Sua presença, aprendemos os Seus sentimentos e modo de pensar:

“E andai em amor, como também Cristo nos amou” (Efésios 5:2).

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5).

Então estamos em condições de “representar” a Ele mesmo — o que, afinal, deve ser nossa tarefa e propósito, de acordo com as palavras do Senhor:

“Para que… resplandeceis como astros no mundo; retendo a palavra da vida” (Filipenses 2:15,16),

e proclamar as virtudes de “quem vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).

Então haverá paz e felicidade em nossos corações, nós desfrutaremos a alegria de Sua comunhão.

Comunhão uns com os outros

No início da sua primeira carta, João escreve:

“para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo” (cp. 1:3),

e, um pouco adiante:

“Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros” (v. 7).

Aqui encontramos dois lados de uma verdade que é de grande importância para nós como cristãos, a saber:

  • Os que têm comunhão com o Pai e o Filho (por possuírem a mesma vida de Deus e o Espírito Santo) também têm comunhão entre si;
  • Aqueles que usufruem desta comunhão em suas vidas, também podem experimentar e usufruir a comunhão uns com os outros (veja também as palavras do Senhor Jesus a Pedro: “Se eu te não lavar, não tens parte comigo”, João 13:8). A realização desta comunhão ocorre precisamente quando eles, cada um pessoalmente, “andam na luz”. Isso nunca é algo exterior, nunca é uma espécie de sociabilização entre pessoas de mentalidade semelhante, mas traz embutido o conhecimento da presença de Deus e a alegria de Sua aprovação.

Esta comunhão com nosso Senhor e um com o outro encontra uma expressão especial ao participar do pão e do cálice à Mesa do Senhor que, como tal, é uma expressão de comunhão:

“Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo” (1 Coríntios 10:16).

Nós “temos parte” em Seu sangue derramado — Ele deu Sua vida por nós — e nós temos parte em Seu corpo, que Ele deu como sacrifício, uma vez por todas. De fato, formamos um Corpo, do qual Ele é a cabeça.

Na Mesa do Senhor, é claro, devem ser respeitados os direitos do Senhor da Mesa, e por isso o apóstolo fala então da impossibilidade de associá-la ao mal (1 Coríntios 10:20). Já nos referimos a este princípio antes, em relação à comunhão pessoal experimentada e usufruída com Deus.

Estou procurando comunhão?

Talvez o leitor dessas linhas agora pense que a comunhão com Deus nesse sentido é quase impossível.

Deus, nosso Pai, nos conhece e sabe com que facilidade um laço tão sensível pode ser danificado e rompido por algum movimento violento e comportamento impetuoso. No entanto, “fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9).

Sua fidelidade é o nosso recurso ilimitado, Sua graça e amor não nos desamparam; mas, também queremos ser atraídos a Ele e sermos felizes em Sua comunhão? Essa é uma questão de determinação pessoal e energia espiritual. Preguiça e indiferença nos fazem atrofiar, tornando-nos fracos e vulneráveis ao mundo, e impede qualquer genuína alegria cristã.

Deus procura comunhão

No entanto, o propósito de amor de Deus é que, os que outrora eram inimigos e pecadores, sejam reconciliados com Ele, tenham paz com Ele e nEle, que estejam em Sua presença e comunhão, para a Sua e nossa felicidade, já agora e em breve na Casa do Pai (João 14:2).

R. B.

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