Revista Leituras Cristãs

Conteúdo cristão para edificação

Quando o hino se torna Oração – Horatio Spafford, Julie von Hausmann e Paul Gerhardt

Existem inúmeros exemplos na história que mostram como as pessoas, em tempos de aflição, também experimentaram a proximidade especial e o poder de seu Deus. Deus tornou verdade nessas pessoas o que Ele certa vez mandou escrever por meio de Seu profeta Isaías:

“Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão” (cp. 43:2).

Nós nos perguntamos de onde essas pessoas, que tiveram que experimentar tanta dor, tiraram a força para escrever hinos ou poemas que demonstravam uma confiança inabalável na direção de Deus. Sua fé não era baseada em alguma religião ou ideia, mas a resposta para isso devemos procurar no fato de que elas criam em um Deus vivo e experimentaram Sua ajuda.

Os três breves exemplos abaixo falam por si mesmos — uma pequena parte desta grande “nuvem de testemunhas”.

Horatio Spafford

Quem ainda conhece Horatio Spafford hoje?

Ele viveu no século XIX (1828-1888) e trabalhou como advogado em Chicago.

Horatio emigrou primeiramente sozinho da Inglaterra para a América; sua esposa e seus quatro filhos deviam seguir depois em um navio, chamado Ville de Havre.

Enquanto esperava ansiosamente por sua família, ele não podia imaginar que ocorrera uma terrível tragédia no mar.

O Ville de Havre colidiu no Atlântico com outro navio e afundou em meia hora. No navio que afundava, sua esposa se ajoelhou com as quatro crianças e orou:

“Se é possível, Senhor, salve-nos! Mas se tivermos que morrer, prepare-nos!”.

Somente sua esposa foi resgatada viva por um marinheiro em um barco — as quatro crianças se afogaram. De volta à Inglaterra, ela enviou um telegrama ao marido: “Salva sozinha!”.

Durante toda a sua vida esse telegrama esteve pendurado na parede de seu escritório, lembrando-o daquela dor terrível.

Nesta lembrança, Horatio Spafford compôs o seguinte hino, que foi traduzido para o português por Stuart Edmund Mc Nair (1867-1959):

Tenho Paz

1. Ou seja o caminho de gozo e de luz, ou seja com trevas de horror, por Cristo já tenho aprendido a dizer: “Tenho paz, doce paz no Senhor”.

Tenho paz, no Senhor,

Tenho paz, doce paz no Senhor.

2. Meu mal, oh, que gozo a verdade saber! Meu mal, em seu fruto e raiz, Jesus sobre a cruz com Seu sangue expiou! Ele mesmo na Bíblia mo diz.

3. Em provas, apertos e perseguições, nos golpes que dá Satanás, bem calmo estarei, pois no meu coração, por Jesus, eu já gozo de paz.

4. Agora desejo com Cristo viver, com Ele a carreira acabar; pois sei que no meio das perturbações, com Jesus, sempre em paz posso estar.

(H&C 312)

Julie von Hausmann

Julie von Hausmann (1826-1901) estava comprometida com um missionário e viajava de navio para seguir seu noivo até a estação missionária. Compreensivelmente, ela mal podia esperar o navio aportar e ansiava pelo casamento.

No entanto, ela foi recebida no porto por um amigo do noivo. O temor de que houvesse acontecido algo se tornou realidade quando esse amigo, em vez de levá-la para a casa da missão, a levou ao pequeno cemitério da missão.

Ali, poucos dias antes, haviam enterrado seu noivo. A jovem ficou chocada. Em sua indescritível dor, ela não saiu da casa da missão por três dias. Dia e noite ela chorou e orou. Ela teve uma luta silenciosa com Deus. Então, após essas horas difíceis, ela deixou a estação missionária pela primeira vez trazendo consigo um hino.

1. Com tua mão me guia, Senhor Jesus! Até que ao fim esteja na Tua luz! Não posso andar sozinho sem Teu poder, mas firme em Tua graça hei de vencer!

Talvez alguns tenham sorrido um pouco desse hino simples. Tendo em vista a circunstância em que Julie von Hausmann colocou esta oração no papel, então é um incentivo para imitarmos um pouco a fé e a confiança desta mulher tão duramente provada.

2. No teu amor envolve meu coração. Consola-me nas dores, na provação; aos pés de Ti desejo permanecer, quero fechar os olhos e cego crer.

3. E se eu não sentir nada do Teu poder, Tu sabes o caminho, sem algo eu ver. Pois sempre assim me guia, Senhor Jesus, até que ao fim esteja na Tua luz!

(Hinos Espirituais 41)

Paul Gerhardt

Paul Gerhardt (1607-1676) certamente é um pouco mais conhecido do que H. Spafford e J. v. Hausmann.

Ele viveu em um tempo marcado por dificuldades e guerras. Aos 44 anos, ele assumiu seu primeiro cargo público como reitor em Mittenwalde.

Ele se casou ali quatro anos depois, com Anna Maria. Sua primeira filha, Maria Elisabeth, e outras três crianças morreram cedo. Apenas seu filho Paul Friedrich Gerhardt foi preservado. A filha mais velha morreu com 8 meses de idade.

Quando a filha de um diácono morreu, pouco tempo depois, Paul Gerhardt escreveu um poema que também reavivou mais uma vez a dor da perda de sua filha:

Ah, que sofrimento amargo, um verdadeiro caldo de Mirra. Separar-se de seus filhos pelo duro caminho da morte, acontece uma ruptura no coração, que ninguém pode expressar.

(Tradução livre)

Este hino, como muitos outros hinos de Paul Gerhardt, respira uma confiança simples em Deus e profunda devoção.

Uma pequena história da vida de Paul Gerhardt transmite um pingo de humor.

Certo dia, não restava nenhum pedaço de pão na despensa, de modo que a esposa, com o coração pesado, procurou o marido com o pedido:

“Dê-me um Kreuzer (moeda de pequeno valor), para que eu possa comprar o essencial; caso contrário, eu não posso pôr a mesa para você”.

Mas, apesar de sua busca intensiva, Paul Gerhardt também não encontrou um único Kreuzer. Então ele disse à sua esposa:

“Eu quero te dar um alimento que não vai acabar”.

Ele se trancou duas horas e depois leu o seguinte poema para sua esposa:

Encomenda os teus caminhos, e aquilo que fere a teu coração, ao mais fiel cuidado de quem o céu controla! Aquele, que às nuvens, ar e ventos, dá direção e caminho, achará também caminho para teu pé, onde possa ele andar.

No Senhor deves confiar, para que te vá bem, para a Sua obra deves olhar, se a tua deve permanecer. Com tristeza e preocupação, com auto-compaixão, nada receberás de Deus; deves solicitá-lo em oração.

Tu, Senhor, sempre tens um caminho, recursos não Te faltam; Tua obra é pura bênção, Teu caminho é pura luz; Tua obra ninguém pode impedir, Tua obra não pode descansar. Quando Tu queres, para os Teus filhos, o imprescindível fazer.

Deixe Ele fazer e agir! Ele é um príncipe sábio; Ele assim Se conduzirá, de modo que ficarás maravilhado quando Ele, assim como Lhe convém, com conselhos maravilhosos, a obra, que tanta preocupação te causou, executar.

(Tradução livre)

A questão que fica para nós é:

  • Será que perdemos algo dessa fé simples e singela?
  • Será que é muito ingênuo para nós simplesmente fecharmos os olhos e crer cegamente?

Se o fizermos, todavia, experimentaremos exatamente o que Paulo escreveu aos filipenses:

“E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Filipenses 4:7).

K. G.

Sugestão de Leitura:

Lembrai-vos dos vossos guias – Arend Remmers