“Estudos sobre a palavra de Deus” – I João 5

“Estudos sobre a palavra de Deus” – I João 5

“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”
Tradução de “Synopsis of the Books of the Bíble – John Nelson Darby

PRIMEIRA EPÍSTOLA DE S. JOÃO – CAPÍTULO 5

O amor pelos irmãos é a prova da realidade do nosso amor por Deus. Ora, este amor deve ser universal; deve estar em exercício para com todos os Cristãos, porque todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus. Ora, quem ama um irmão, ama aquele que é nascido de Deus. E se o motivo reside em sermos nascidos de Deus, nós amaremos todo aquele que for nascido de Deus (capítulo 5:1)

Mas, por outro lado, há um perigo: Pode acontecer que amemos os irmãos por eles serem amáveis para conosco e por nos oferecerem uma sociedade agradável, em que a nossa consciência se não sente ferida. Há, pois, uma contra-prova:

“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (v.Z). Não é como filhos de Deus que eu amo os meus irmãos, se não amar a Deus, de quem eles são nascidos. Posso amá-los individualmente, como companheiros; ou então posso amar alguns de entre eles, mas não os amo como filhos de Deus, se não amar ao próprio Deus. Se o próprio Deus não tem no meu coração o Seu verdadeiro lugar, tudo aquilo que traz o nome de amor dos irmãos exclui Deus – e isto de uma maneira muito mais completa e sutil, porque o que nos liga a eles traz o sagrado nome do amor fraternal.

Ora, há uma pedra-de-toque, mesmo até para este amor de Deus, a saber: a obediência aos Seus mandamentos. Se eu ando com os irmãos, andando eles mesmos em desobediência aos mandamentos do Senhor, não é, certamente, por eles serem Seus filhos que eu os amo. Se eu os amasse apenas porque amo o Pai e porque eles são Seus filhos, gostaria, sem dúvida, que eles Lhe obedecessem. Portanto, se ando em desobediência com os filhos de Deus, sob o pretexto de amor fraternal, isso não é amar os meus irmãos como filhos de Deus. Se eu os amasse como tais, amaria também o nosso Pai, e não poderia andar em desobediência para com Ele e fazer deste procedimento uma prova de que os amo porque são Seus. Se eu amasse os meus irmãos por eles serem filhos de Deus, amaria também todos aqueles que o ‘são, porque o mesmo motivo me obriga a amá-los a todos.

A universalidade deste amor acerca de todos os filhos de Deus, o seu exercício na obediência prática à vontade de Deus – tais são os sinais do verdadeiro amor fraternal. O que não tiver estes caracteres não será senão um espírito carnal, de facção, que reveste o nome e as formas do amor fraternal. É evidente que eu não amo o Pai, se encorajar os Seus filhos a desobedecerem-Lhe.

Ora, existe um grande obstáculo a esta obediência – e este obstáculo é o mundo. O mundo tem as suas formas, que estão bem longe da obediência a Deus. Quando não pensamos senão em Deus e em fazermos a Sua vontade, a inimizade do mundo cedo se manifesta. O mundo, por meio dos seus prazeres e das suas delícias, também atua sobre o coração do homem, na medida em que este andar segundo a carne. Numa palavra, o mundo e os mandamentos de Deus estão em contradição; mas os mandamentos de Deus não são penosos para os Seus filhos, porque todo aquele que é nascido de Deus é vitorioso do mundo (v.4). Há uma natureza e um princípio que sobrepujam as dificuldades que o mundo opõe à sua marcha. A sua natureza é a natureza divina, porque ele é nascido de Deus; o seu princípio é o princípio da fé. A sua fé é insensível aos atrativos que este mundo oferece à carne, e isto porque esta natureza tem, totalmente fora deste mundo, um espírito independente, um objeto próprio que a governa. A fé dirige os seus passos; ora, a fé não o mundo nem o que está presente. A fé crê que Jesus, que o mundo rejeitou, é o Filho de Deus. Deste modo o mundo perde o seu império sobre ela. As afeições e a confiança desta natureza estão fixadas em Jesus, que foi crucificado, reconhecendo­ Filho de Deus. Assim o crente, separado do mundo, tem coragem da obediência e faz vontade de Deus, que permanece eternamente.

O apóstolo resume, em poucas palavras, o testemunho de Deus respeito da vida eterna que nos deu. E esta vida não está primeiro Adão; está no último, no Filho de Deus. O homem nascido de Adão não a possui nem a adquire. Bem deveria ter ele adquirindo a vida, sob a lei. Era o que caracterizava a lei: “Faz isso, e viverás”. Mas o homem não o fez, e nem poderia fazê-lo …

Mas Deus dá-lhe a vida eterna, e esta vida está em Seu Filho. Quem tem o Filho, tem a vida, quem não tem o Filho, não tem a vida!…

Ora, quais são os testemunhos prestados a esse dom da vida eterna? Os testemunhos são três:

O Espírito, a água e o sangue. É este Jesus, o Filho de Deus, que veio pela água e pelo sangue; não pela água somente, mas pela água e pelo sangue. O Espírito também dá testemunho, porque Ele é a Verdade. Aquilo a que Ele presta testemunho é que Deus nos deu a vida eterna e que esta vida está em Seu Filho. Mas de onde manam esta água e este sangue? Do lado ferido de Jesus! É o juízo de morte pronunciado e executado sobre a carne (ver Romanos 8:3), sobre tudo aquilo que é do velho homem, sobre o primeiro Adão. Não que o pecado do primeiro Adão tenha estado na carne de Cristo, mas Jesus é morto na carne como sacrifício pelo pecado. “Quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado” (Romanos 6:10). O pecado na carne foi condenado na morte de Cristo na carne. Não havia outro remédio. A carne não podia ser modificada nem sujeita à lei. A vida do primeiro Adão era do pecado, no princípio da sua vontade; não podia ser submetida à lei. A nossa purificação, quanto ao velho homem, está na sua morte. O que está morto está justificado do pecado (Romanos 6:7). Portanto, nós somos batizados, para termos parte na morte de Jesus. Somos crucificados com Cristo. Não obstante, vivemos; mas não somos nós que vivemos, é Cristo que vive em nós. Participando da vida de Cristo ressuscitado, temo­-nos por mortos com Ele; porque, por que razão viver desta nova vida, da vida do último Adão, se pudéssemos viver diante de Deus da vida do primeiro? Não; vivendo de Cristo, aceitámos, pela fé, a sentença de morte pronunciada por Deus sobre o primeiro Adão. É a purificação cristã: a própria morte do velho homem, porque somos feitos participantes da vida em Cristo Jesus. “Nós estamos mortos”, crucificados com Ele. Temos necessidade de uma purificação perfeita perante Deus; e temo-Ia, porque o que era impuro, já não existe. O que existe agora, como nascido de Deus, é perfeitamente puro.

Veio pela água – poderoso testemunho, saindo do lado de um Cristo morto, de que não é necessário procurar a vida no primeiro Adão; porque Cristo, vindo como homem, encarregando-Se da sua causa, Cristo, vindo em carne, teve de morrer! Aliás, Ele ficaria só, na Sua própria pureza. É no Filho de Deus, ressuscitado de entre os mortos, que é preciso procurar a vida. A purificação é feita pela morte.

Mas não foi somente pela água que Ele veio; foi também pelo sangue. A expiação dos nossos pecados era tão necessária como a purificação moral das nossas almas. Possuímo-la no sangue de um Cristo submetido à morte. Só a morte podia expiar os nossos pecados e apagá-las. E Jesus foi morto por nós. A culpabilidade do crente já não existe perante Deus; Cristo colocou-Se no seu lugar. A vida está em Cima, e nós estamos ressuscitados com Ele, tendo-nos Deus perdoado todas as nossas ofensas. A expiação é feita pela morte.

A terceira testemunha é o Espírito: Colocada a primeira na ordem do Seu testemunho sobre a Terra, só Ele presta testemunho em poder, de sorte que conhecemos as outras duas; Ele é a última na ordem histórica, porque esta foi a ordem: primeiro a morte, e só depois dela o Espírito Santo(1). Com efeito, é o testemunho do Espírito Santo, é a sua presença em nós que nos toma capazes de apreciarmos o valor da água e do sangue. Não teríamos nunca compreendido o alcance prático do morte de Cristo, se o Espírito Santo não tivesse sido para o novo homem um poder revelador do seu vaiar e da sua eficácia. Ora, o Espírito Santo desceu de um Cristo ressuscitado e assunto ao Céu; e assim nós sabemos que a vida eterna nos é dada no Filho de Deus.

1) Até mesmo a recepção regular do Espírito Santo assim foi feita (ver Atos 2:38).

Os testemunhos destas três testemunhas reencontram-se nesta mesma verdade: que a graça que o próprio Deus – nos de a vida eterna, e que esta vida está no Filho. O homem não está ai para nada, senão por causa do seus pecados. É o dom de Deus E a vida que Ele dá está no Filho O testemunho é o testemunho d Deus. Que felicidade termos u tal testemunho, e isto da parte d próprio Deus e em perfeita graça!  

Temos, pois, estas três coisa A purificação, a expiação e presença do Espírito Santo com testemunhas de que a vida eterna nos é dada no Filho, que foi morto pelo homem, quando Ele estava em relação com o homem neste mundo. Ele teve de morrer pelo homem, tal como ele é. A vida está algures, isto é, nEle mesmo.

Acaba aqui a doutrina da Epístola. O apóstolo escreveu estas coisas a fim de que aqueles que cressem no Filho soubessem que tinham a vida eterna (v.13). Não dá meios de exame para levar os fiéis a duvidar de que tinham a vida eterna, mas – vendo que havia enganadores que procuravam desviá-los, como se tivessem falta de algo importante, e que se apresentavam como possuindo uma luz superior ­assinala aos fiéis as provas da vida, a fim de os fortalecer, desenvolvendo a excelência dessa vida e da sua posição, como dela gozando já, e a fim de que eles compreendessem que Deus lha tinha dado, e que não fossem de modo nenhum perturbados ou abalados no seu espírito.

Em seguida João fala da confiança prática em Deus que decorre de tudo isso – confiança que se exerce em face de todas as nossas necessidades neste mundo, de tudo aquilo que nós temos grande desejo de pedir a Deus.

Sabemos que Ele nos ouve sempre em tudo o que Lhe pedirmos segundo a Sua vontade (v.14). Que precioso privilégio! Aliás, o próprio Cristão não desejaria que lhe fosse concedido algo que fosse contrário à vontade de Deus. Mas para tudo o que é segundo a Sua vontade, o Seu ouvido está sempre aberto para nós, sempre atento. Deus escuta sempre! Não está nunca, como o homem, de tal forma ocupado que não pode escutar – ou não quer escutar! Deus ouve-nos sempre! E, evidentemente, o poder não Lhe falta. A atenção que Ele nos presta é uma prova da Sua benevolência. Por isso recebemos as coisas que Lhe pedimos. Ele atende-nos! Que doce relação; que alto privilégio! E é também um privilégio de que podemos usar em caridade para com os outros.

Se um irmão peca e Deus o castiga, podemos orar por esse irmão – e a vida lhe será restituída (v.16). O castigo tende para a morte do corpo (ver Jó 33 e 36, e Tiago 5:14-15); oramos pelo culpado e ele será curado. De outro modo, a doença seguirá o seu curso. Toda a iniqüidade é pecado, e há pecado de tal ordem que é para morte. Não se trata aqui, parece-me, de um pecado particular, mas sim de todo o pecado que tem um tal caráter que em vez de revelar a caridade

do Cristão, revela antes a sua indignação. Foi assim que Ananias e Safira cometeram um pecado para morte. Tinham dito uma mentira, mas uma mentira acompanhada de tais circunstâncias que excitava o horror em vez da compaixão. E isto compreende-se facilmente em muitos outros casos.

Temos aqui o pecado e o castigo. Mas o lado positivo é também colocado perante nós. Enquanto nascidos de Deus, não cometemos pecado; guardamo­-nos, e “o maligno” não nos atinge (v.18). O maligno não possui nada com que possa tentar o novo homem. O Inimigo não tem objeto que possa ter atrativos para a natureza divina que está em nós, ocupada como está, pela ação do Espírito Santo, das coisas divinas e celestiais, ou da vontade de Deus. Portanto, a nossa parte consiste em viver assim – estando o novo homem ocupado das coisas de Deus e do Espírito.

O apóstolo termina a sua epístola assinalando estas duas coisas: A nossa natureza, a nossa razão de ser como Cristãos, e o objeto que nos foi comunicado para fazer nascer e para alimentar a fé.

Sabemos que somos de Deus; e isto, não de uma maneira vaga, mas em contraste com tudo aquilo que não é nós principio de grande importância, que toma a posição cristã exclusiva pela sua própria natureza. Não é apenas boa ou má, melhor ou pior; é de Deus! Nada que não for de Deus (isto é, que não tirar dEle a sua origem) pode ter este caráter e este lugar. O mundo inteiro jaz no maligno.

O Cristão tem a certeza destas duas coisas, em virtude da sua natureza, que discerne e que conhece o que é de Deus e que, portanto, julga tudo o que é oposto. Estas duas posições não são simplesmente boa e má; são de Deus e do Inimigo, isto pelo que respeita à sua natureza.

Quanto ao objeto desta natureza, sabemos que o Filho de Deus veio – verdade esta de um imenso alcance também. Não se trata apenas de existir o bem e o mal; mas o próprio Filho de Deus entrou nesta cena de miséria para apresentar um objeto aos nossos corações. Mas há mais: Deu-nos inteligência para conhecermos, através de toda a mentira deste mundo, de que Satanás é o príncipe, o que é verdadeiro – o Verdadeiro. Privilégio imenso, que muda toda a nossa posição! O poder do mundo, pelo qual Satanás nos cegava, é completamente destruído e nós somos introduzidos na verdadeira luz. E nesta luz nós vemos e conhecemos Aquele que é verdadeiro, Aquele que é a perfeição em si mesmo, pelo qual tudo pode ser perfeitamente discernido e julgado segundo a verdade. Mas isto não é tudo! Nós estamos nesse que é Verdadeiro, participamos da Sua natureza, e, permanecendo nEle, gozamos da Fonte da Verdade2. Ora, é em Jesus que nós estamos! É assim, é nEle que estamos, em relação com as perfeições de Deus.

Ainda podemos notar aqui – o que imprime um caráter especial a toda a Epístola – a maneira como Deus e Cristo estão unidos no espírito do apóstolo. É por causa disso que João diz freqüentemente “Ele”, onde é preciso entender “Cristo”, embora precedentemen­te tenha falado de Deus. Por exemplo; “Estamos no Verdadeiro, isto é, em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o Verdadeiro Deus e a Vida Eterna” (capítulo 5:20).

Compreendemos, pois, o encadeamento divino da nossa posição: Estamos naquele que é Verdadeiro! É a natureza de Jesus, em Quem nós estamos! Ora, na realidade, quanto à natureza, é o próprio Deus; quanto à Pessoa e à maneira de estar nEle, é o Seu Filho Jesus Cristo. É no Filho ­no Filho, homem – que nós estamos, de fato, quanto à Sua Pessoa. Mas Ele é o Verdadeiro Deus, o Deus Verdadeiro.

E isto ainda não é tudo: Nós temos a vida nEle! E Ele é também a Vida Eterna, de modo que nós possuímos a vida eterna nEle. Conhecemos o Verdadeiro Deus, temos a vida eterna!

Tudo o que estiver fora disto são ídolos (v.21). Que Deus nos guarde deles e que Ele nos ensine, pela Sua graça, a guardarmo-nos deles. Isto dá ocasião ao Espírito de Deus de falar de “a Verdade” nas duas pequenas epístolas que se seguem.

2. Já fiz notar esta passagem como sendo uma espécie de chave para a maneira como conhecemos realmente Deus e permanecemos nEle. Ela fala de Deus como daquele que nós conhecemos, em Quem nós somos. A explicação consiste na indicação ao Seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. Somente aqui, como se vê no texto, é a Verdade e não o Amor.

 

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