Olhando para Jesus

Olhando para Jesus

Olhando para Jesus

“Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus…”
(Hebreus 12:1-2 – ERC)

 

Olhando para Jesus

São apenas três palavras, mas que encerram o segredo de toda a vida cristã.

Contemplando a Jesus nas Escrituras para vermos o que Ele é, o que fez, o que promete e o que pede; para acharmos no Seu caráter o nosso modelo, nos Seus ensinos a nossa instrução, nos Seus preceitos a nossa lei, nas Suas promessas o nosso descanso, e na Sua Pessoa e Obra a nossa justiça e redenção. Uma plena satisfação oferecida a todas as necessidades da nossa alma.

Olhando para Jesus crucificado, para encontrarmos no sangue que Ele derramou o nosso resgate, perdão e paz.

Olhando para Jesus ressuscitado, para acharmos nEle a única justiça que justifica e permite, com confiança e certeza, ainda que indignos, aproximarmo-nos em Seu nome daquele que é Seu Pai e nosso Pai, Seu Deus e nosso Deus.

Olhando para Jesus Glorificado, para acharmos nEle o advogado celestial (1 Jo 2:1), que completa a obra da nossa educação na Sua escola, para o que comparece, agora, e está sempre presente, perante Deus por nós (Hb 9:24), como Sumo-Sacerdote, a vítima sem mácula que purifica, sem cessar, a iniqüidade das nossas ofertas (Êx 28:38).

Olhando para Jesus revelado pelo espírito Santo para encontrarmos na Sua  constante comunhão a santificação, a renovação do entendimento e a transformação da vontade rebelde, para que assim triunfemos sobre todas as investidas do mundo e do maligno. Resistindo à sua violência por Jesus, a nossa força, descobrindo a sua astúcia por Jesus, a nossa’ sabedoria, amparados pela simpatia de Jesus, que suportou vitoriosamente todas as tentações e, com o Seu socorro, não cairmos em nenhuma delas.

Olhando para Jesus, que dá o arrependimento e também a remissão dos pecados (At 5:31), para que Ele nos conceda a graça de conhecermos, lamentarmos, confessarmos e deixarmos as nossas transgressões.

Olhando para Jesus para recebermos dEle a tarefa e a cruz de cada dia; para, mediante a Sua graça, que nos basta e capacita, levarmos essa cruz e cumprir a tarefa; para sermos pacientes com a Sua paciência, ativos com a Sua diligência, amantes com o Seu amor, sem perguntar: “Que posso eu?”, mas antes: “Que pode Ele?”, esperando que se manifeste o Seu poder, toda a Sua plenitude, na nossa fraqueza (2 Co 12:9).

Olhando para Jesus para que nos afastemos do nosso “ego” e esqueçamos de nós mesmos; de modo que as trevas sejam dissipadas à luz do Seu rosto; assim que a nossa alegria seja santa, ou que a nossa dor seja atenuada; para que nos humilhe e nos exalte; para que nos aflija e nos console; para que nos despoje e nos enriqueça; para que nos ensine a orar e responda as nossas orações; para que, deixando-nos no mundo, nos mantenha separado dele, e a nossa vida, escondida com Cristo em Deus, dê, perante os homens, um testemunho fiel de Cristo.

Olhando para Jesus que retornou à casa do Pai, agora Se ocupa ali em preparar­-nos um lugar (Jo 14:2); para que esta gloriosa e bem-aventurada perspectiva nos faça viver em esperança e nos prepare para morrermos em paz, quando chegar o dia de enfrentar este último inimigo, que Ele venceu por nós, o qual também venceremos, por meio dEle, se antes não formos libertados pelo Senhor, na Sua vinda; inimigo este convertido em amigo, antes o rei dos terrores, hoje feito, por Cristo, mensageiro da felicidade eterna.

Olhando para Jesus cuja volta dos céus é certa. Ainda que em época incerta, é, de século para século, a viva esperança da igreja fiel, que se anima e reveste da paciência, vigilância e gozo, com o pensamento de qC1e o Senhor está perto (Fp 4:4-5; 1 Ts 5: 15-18,23).

Olhando para Jesus para que nos ensine a olharmos para Ele, autor da nossa fé, bem como da meta; para que nos guarde firmes nesta fé até o fim, pois é Ele o consumador dela.

Olhando para Jesus e em mais nenhum outro objeto, como exprime o texto original grego de nosso versículo, o qual ao mesmo tempo nos admoesta a contemplar o Senhor e a afastarmos os olhares de todo o mal que nos rodeia.

Olhando para Jesus e não para nós mesmos, nem para os nossos pensamentos ou raciocínios, imaginações, gostos e planos.

Olhando para Jesus e não para o mundo nem tampouco para os seus costumes, exemplos e critérios.

Para Jesus e não para Satanás, ainda que ele procure atemorizar­-nos com furores e tentar seduzir­-nos com afagos. Oh! Quantos contratempos amargos, lutas interiores, quedas dolorosas; quanta energia desperdiçada, quantas perguntas inúteis e quanto tempo perdido em flertes perigosos com o mal e com sonhos vãos se evitariam se olhássemos somente para Jesus e O seguíssemos onde quer que fosse. Estaríamos então decididos a não perder de vista a senda que ele traçou, e nessa ocupação veríamos que não vale a pena nos demorar sequer um minuto nos lugares onde não é do Seu propósito levar-nos!

Para Jesus, e não para os nossos sistemas,  por mais evangélicos que sejam. É a fé que salva, que santifica e consola. Não basta, portanto, somente concordar com a doutrina da salvação, mas, sim, unir-se à pessoa do Salvador – amar a Cristo e entregar-lhe a ser. Não basta saber de Jesus, é mister possuir a JESUS. Além do que, ninguém pode dizer que realmente O conhece, se não possuí-LO primeiro. Segundo a expressão do discípulo a quem Jesus amava ­”nEle estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1:4) – é na vida que existe a luz, e é em Jesus que se encontra a vida.

Olhando para Jesus, e não para as nossas meditações e orações nem tampouco para as conversações piedosas e leituras edificantes, nem ainda para as santas reuniões que temos, nem mesmo ainda para a participação na Ceia do Senhor. Podemos usar livremente todos estes meios da graça sem, contudo, confundi­-los com a própria graça, e sem deixarmos de olhar para Aquele que é o único que pode torná-los eficazes quando – por meio deles – se revela às nossas almas.

Olhando para Jesus e não para a nossa posição na Igreja, para a família a que pertencemos, ao batismo, à educação recebida, à doutrina que professamos, ao conhecimento da Bíblia ou à idéia que os demais ou nós façamos da nossa devoção. Alguns dos que terão profetizado em nome de Jesus ouvi-LO-ão dizer, naquele dia, “nunca vos conheci” (Mt 7 :22­23). Ele, no entanto, confessará diante do Pai e Seus anjos até o mais humilde de quantos tiverem postos nEle o olhar da fé viva.

Para Jesus, e não para os irmãos, mesmo os mais piedosos e amados dentre eles. Seguindo o homem, corremos o risco de nos descaminharmos, mas, se seguirmos a Jesus, estamos seguros de nunca nos desviarmos. Pondo o homem entre Jesus e a alma, acontece que aquele cresce, sem que nos demos conta disso, enquanto Jesus diminui. Logo não mais saberemos como encontrar a Jesus quando nos faltar o homem. Quando este então nos faltar, tudo nos faltará. Se, pelo contrário, Jesus está entre nós e o amigo íntimo, o nosso afeto para com o homem será mais direto e ao mesmo tempo mais profundo, menos apaixonado e mais terno; ser-nos-á menos necessário e mais útil, até ser, a seu tempo, um instrumento de ricas bênçãos para nós nas mãos do Senhor, e a ausência do homem far-nos-á muito bem, quando o Senhor quiser permitir, por um pouco de tempo, para assim nos aproximarmos dEle, o único amigo fiel, do Qual nem a vida nem a morte nos podem separar. “Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados,  nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem o profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 8:38-39 – ERC.).

Para Jesus, e não para seus inimigos, ou os nossos próprios. Em vez de os odiarmos e temermos, saberemos amá-los e superá-los.

Olhar para Jesus, e não para os obstáculos que se encontram pelo caminho. Se nos detivermos a contemplá-los ficaremos confusos, oprimidos e desanimados, visto que não podemos compreender a razão pela qual são permitidos, nem tampouco ver os meios por que poderíamos vencê-los. Logo que olhou para as ondas agitadas pela tempestade, o apóstolo Pedro submergiu; no entanto, enquanto olhou para o seu Salvador, pôde andar sobre as águas como sobre uma rocha firme (Mt 14:29-30). Quanto mais difícil for a nossa tarefa, quando mais terríveis forem as tentações, tanto mais necessitamos de olhar somente para Jesus.

Postos os olhos em Jesus e não para as nossas aflições, enumerando-as e computando o seu peso para, eventualmente, encontrar uma satisfação estranha no seu sabor amargo. Fora de Jesus, a aflição não santifica. Pelo contrário, endurece o coração. Não produz, segundo a Palavra de Deus, “a paciência”, mas sim a rebelião. Tampouco causa a simpatia ou a esperança (Rm 5:3­5), mas antes o egoísmo e o desespero. É só à sombra da Sua cruz que podemos apreciar a justa medida da nossa cruz, recebê-la cada dia das Suas mãos, levá-la com amor, ações de graças, alegria, e encontrar nela um manancial de bênçãos para os nossos semelhantes e nós mesmos.

Para Jesus e não para os mais queridos e legítimos gozos terrenos, temendo que, sendo totalmente absorvidos por eles, ocultem a vista daquele que no-los concede. Se estivermos olhando para Ele antes de tudo, então será dEle que receberemos estes benefícios, os quais se tomarão para nós mil vezes mais preciosos, porque os possuiremos como sendo presentes ofertados por Sua bondade, e os confiaremos à Sua vigilância, para gozar deles na Sua presença e em Sua comunhão, e usá-los para a Sua glória.

Para Jesus, e não para os instrumentos de que Ele se serve para moldar o nosso caminho. Acima dos homens, das circunstâncias e de mil e uma coisas – chamadas pelo seu justo nome “secundárias” – elevemo-nos até à causa primária e principal: a Sua vontade. Elevemo-nos até à . origem desta mesma vontade, que é o amor. Então, a nossa gratidão, sem ser menos profunda e viva para com os que nos fazem bem, não se limitará à pessoa deles. Então, no dia da tribulação, sob o golpe menos esperado, o menos explicável, e o mais esmagador, poderemos dizer como o Salmista: “Emudeci; não abro a minha boca, porquanto tu o fizeste” (SI 39:9) e, no silêncio da nossa dor, responder-nos-á, amorosamente, a voz celestial:

“O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois” (Jo 13:7).

Olhando para Jesus, e não para os interesses da nossa causa nem os do nosso partido ou igreja e muito menos os interesses pessoais. O único objetivo da nossa vida deve ser a glória de Deus. Se não fizermos dela o alvo supremo dos nossos esforços, teremos que privar-nos de Seu socorro, porque a Sua graça só é concedida em serviço da Sua honra e glória. Se, pelo contrário, é a Sua glória que buscamos, primeiro e acima de todas as coisas, podemos contar sempre com a Sua graça.

Olhando para Jesus, e não para a sinceridade das nossas intenções, ou a firmeza das nossas resoluções.

Quantas vezes as melhores intenções apenas prepararam o caminho para as derrotas mais humilhantes! Apoiemo-nos não sobre as nossas intenções, mas sim no Seu grande amor; não sobre as nossas resoluções, mas sim nas Suas promessas infalíveis.

Para Jesus, e não para a nossa força. A nossa força presta somente para glorificar a nós próprios. Para glorificar a Deus necessitamos do poder de Deus.

Para Jesus, e não para a nossa fraqueza.
Lamentando-a alguma vez tornamo-nos mais fortes? Olhemos continuamente para Jesus, só para Jesus, e o Seu poder comunicar-se-á aos nossos corações, e o Seu louvor brotará dos nossos lábios enchendo a nossa boca.

Para Jesus, e não para os nossos pecados, nem para a origem deles (Mt 15:19), nem para o justo castigo que eles merecem. Contemplemo­-nos, somente, para reconhecer o quanto necessitamos olhar para Ele. Não o façamos, porém, como se não fôssemos pecadores, mas, pelo contrário, porque o somos, e medindo a grandeza das nossas ofensas, a do sacrifício que Ele expiou e a graça que as perdoa. “Por cada olhar que lançamos a nós mesmos, devemos deitar dez a Jesus”, diz um eminente servo de Deus, e “se está mais que provado que não perderemos de vista a nossa fraqueza olhando para JESUS crucificado, (porque a nossa conduta miserável está como que gravada na cruz), está provado, do mesmo modo, que, ao olharmos para as nossas fraquezas, podemos perder de vista a Jesus Cristo, (pois a Cruz não está, como é natural, gravada na imagem da nossa fraqueza)”. Ele ainda acrescenta: “Olhai-vos a vós mesmos, mas na presença da Cruz e por meio de Jesus Cristo”. A contemplação do pecado só proporciona a morte. A contemplação de Jesus dá vida. O que curava o israelita, no deserto, não era a contemplação das suas feridas, mas sim o levantar dos olhos e fixá-los, com fé, na serpente de metal, figura da Cruz de Cristo (Nm 21:9; Jo 3:14-15).

Devemos olhar para Jesus e não para a nossa pretensa justiça. Enfermo entre enfermos é todo aquele que crê estar de saúde. Cego entre cegos é aquele que julga ver, quando afinal não vê (Jo 9:41). Se é muito perigoso contemplarmos, largamente, a nossa miséria, não menos perigoso é apoiarmo-nos com complacência sobre méritos imaginários.

Para Jesus, e não para a lei. Porque a lei moisaica – e bem assim qualquer outro sistema parecido – estipula ordens, mas não proporciona a força para cumpri-Ias. A lei sempre condena e nunca perdoa. Colocarmo-nos outra vez debaixo da lei é apartarmo-nos da graça. Eis as palavras solenes do apóstolo:

“Separados estais de Cristo, vós os que vos justificais pela lei: da graça tendes caído” (GI 5:4 ­ERC.). A medida que fizermos da obediência, ou dos méritos, o meio da nossa salvação, perderemos a paz, a força e o gozo, pois esquecemo-nos de que “O fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). Visto que a lei nos constrangeu a procurarmos no Senhor o nosso único e verdadeiro Salvador, é só a Ele que cabe o direito de requerer a nossa obediência. Essa obediência é tal que inclui todo o coração, incluindo os pensamentos mais secretos; porém já não será mais um peso férreo, um fardo insuportável, tornando-se antes, num jugo suave e num fardo leve. Uma obediência, aliás, agradável, apesar de obrigatória, por Ele inspirada e ao mesmo tempo prescrita.

Olhando para Jesus, e não para o que estivermos fazendo para Ele. Ocupados demasiadamente com a obra, podemos esquecer do Mestre. Corremos o risco de ter as mãos cheias e o coração vazio. Se, pelo contrário, nos ocuparmos com o nosso Mestre, não podemos esquecer a nossa tarefa. Se o coração estiver preenchido com Seu amor, poderão as mãos ficar ociosas em servir-lhe?

Olhando para Jesus, e não para o êxito aparente dos nossos esforços. O êxito aparente, não é a medida do verdadeiro resultado. Além disso, Deus não nos deu o mandamento de alcançarmos resultados ou obtermos êxitos, mas sim de trabalharmos. É do nosso trabalho que Ele pedirá contas, e não dos Seus resultados. Por que nos preocupamos então? A nós, compete-nos espalhar a semente, a Deus recolher os frutos. Se não for hoje, será amanhã. Se não for para nós será para os demais. Ainda que nos seja concedido ver algum fruto, é sempre perigoso confiarmos nele. Por um lado, somos tentados a julgar-nos com algum valor, por outro, habituamo-nos a diminuir o nosso zelo, quando obtemos qualquer resultado feliz, e isso no próprio momento em que deveríamos redobrar a energia e o cuidado. Olhar e fixar os resultados é andar por vista, e não por fé. Fixar os olhos em Jesus, perseverar em segui-LO e servi-LO, apesar de qualquer contratempo ou desalento, é andar por fé.

Ter os olhos postos em Jesus, e não nos dons espirituais que tenhamos recebido ou que estejamos recebendo do Senhor. Quanto à graça que ontem recebemos, pertence ao passado e não podemos mais usá-la, nem tampouco viver dela. Quanto à graça de hoje, é-nos confiada para o trabalho de hoje. Não para nos entregarmos a contemplá-la, mas para a empregarmos imediatamente. Não para a retermos, arrogando-nos da riqueza que possuímos – como se fossem talentos de outro ou prata -, mas para a gastarmos, ficando vazios e pobres, com os olhos em Jesus, para recebermos mais, quando for do Seu agrado.

Olhando para Jesus, não para o pensar que sentimos por nossos Pecados, nem para o grau de humilhação que eles provocam em nós. Se esta humilhação ao menos fosse suficiente para não sermos mais complacentes conosco. Se os pecados ao menos nos afligissem o bastante para fazer­-nos olhar para Jesus, e Ele possa então livrar-nos deles. Isto é tudo que o Senhor pede, e este mesmo olhar, mais do que outro qualquer, é o que fará derramar lágrimas de arrependimento e acabará com todo o nosso orgulho. E quando, como Pedro, nos é dado chorar amargamente (Lc 22:62), oh!, então, que os olhos estejam, mais do que nunca, fixos em Jesus, porque o arrependimento poderia tomar-se um engano do inimigo se pensássemos lavar, de qualquer modo, com lágrimas, esses pecados, que nada pode lavar senão o sangue do Cordeiro de Deus.

Postos os olhos em Jesus, e não no entusiasmos de nossa alegria, nem no vigor da nossa segurança, ou no ardor de nosso amor. Do contrário, por pouco que este amor esfrie, a esperança vacile, ou a alegria diminua – quer por causa da nossa infidelidade quer pela prova da nossa fé -, tão depressa se tenha dissipado a emoção, creremos ter perdido a nossa força, e cairemos num abatimento funesto ou talvez numa completa indolência, podendo até mesmo chegar a condenáveis murmurações. Lembremo-nos de que, se alguma vez vier nos faltar a emoção com sua doçura, a fé e o seu poder ainda permanecerão conosco. Para que possamos ser sempre abundantes na Obra do Senhor (1 Co 15:58), sejamos constantes em olhar, não para os nossos corações, sempre instáveis, mas para Aquele que é sempre “o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13:8 – ER.C.).

Olhando para Jesus, e não para o grau de santificação que por Sua graça tivermos alcançado. Se enquanto computarmos faltas e quedas não pudéssemos nos considerar filhos de Deus, como poderíamos então apreciar o gozo da salvação? Mas este gozo não se adquire por tal preço. A santificação é o fruto, e não a raiz da nossa redenção. É a obra de Jesus Cristo a nosso favor que nos reconcilia com Deus. É a obra do Espírito Santo em nós que nos renova à Sua semelhança. A imperfeição duma fé que, embora sincera, é pouco fecunda, não ofusca em nada a amplidão da obra perfeita do Salvador, nem a certeza da Sua promessa imutável, assegurando a vida eterna a todo o que nEle confia. Deste modo, descansar no Redentor é o verdadeiro meio de Lhe obedecer, e é só mediante a paz que provém do perdão que a alma se fortifica para a luta.

Se há alguns que abusam desta verdade preciosa para se entregar sem escrúpulos à leviandade espiritual, imaginando que a fé que julgam ter compense a santidade que não possuem, é conveniente lembrar-lhes a declaração solene do apóstolo Paulo: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (GI 5:24), bem como aquela outra do apóstolo João: “Aquele que diz: eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1 Jo 2:4), e estas palavras do Senhor Jesus: “Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 7:19).

Para Jesus, e não para a nossa fé. A última cilada do inimigo, quando não pode induzir-nos a olhar para outro lado, é fazer-nos contemplar a própria fé, em vez de olharmos para o Salvador, procurando, assim, desanimar-nos quando a fé é fraca, ou envaidecer-nos quando é forte, e, em ambos os casos, enfraquecer-nos. O poder não procede da fé, mas sim do Salvador, mediante a fé; não de olharmos uns para os outros, mas de olharmos para Jesus.

Para Jesus, pois é com Ele que aprenderemos a conhecer, sem perigo para as nossas almas, o que convém saber do mundo e de nós próprios: as nossas misérias, perigos, recursos e vitórias. Vendo todas as coisas como são, segundo a verdadeira luz, porque é o Senhor quem no-las ensinará, e isso somente à medida que o ensino dEle produzir, em nós, os frutos de humildade e sabedoria, de gratidão e ânimo, de vigilância e oração. Jesus nos instruirá em tudo quanto Ele quer que saibamos, e tudo o que não aprendermos dEle vale mais ignorá-lo.

Olhando para Jesus durante o tempo que nos resta  nesta peregrinação terrestre. Para Jesus, a todo o momento, sem  nos distrairmos com as recordações de um passado que devemos esquecer ou com as preocupações de um futuro que desconhecemos.

Para Jesus. Se nunca olhamos para o Senhor, façamo-la agora mesmo. Para Jesus outra vez se temos cessado em fazê-lo. Para Jesus somente, Para Jesus por toda a vida, Jesus para sempre, com um olhar cada vez mais firme, mais seguro, sendo “transformados de glória em glória na sua própria imagem” (2 Co 3:18). E esperemos a toda a hora que Ele nos chame para passarmos da terra ao céu, do tempo à eternidade, para, por fim, chegada a hora prometida, a hora bendita, sermos “semelhantes a Ele; porque havemos de vê-LO como Ele é” (l Jo 3:2).

Este artigo foi escrito em 1874, pelo francês Theodore Mondod (1836-1921).

 

Cristo Ele Atrai Nosso Coração

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