A ASSEMBLÉIA
A IGREJA EXISTINDO DE FATO
Recomendável ler Atos 1 a 9
Ao traçarmos os pensamentos de Deus acerca da Igreja, como revelada em Sua Palavra, notaremos que os primeiros capítulos do livro de Atos nos conduzem a uma etapa adiante da de Mateus 16, onde a Igreja é anunciada profeticamente. Aqui em Atos ela está sendo formada e já observa-se sua existência de fato. Porém o Espírito Santo ainda não apresenta os ensinamentos que lhe dizem respeito, pois o momento para tal ainda não chegara. Nem tampouco havia sido chamado o homem, o vaso escolhido para revelar o mistério de Cristo e da Igreja.
A morte de Cristo é a base de todas as bênçãos para os homens, quer para os santos do período do Antigo Testamento, quer para os santos que compõem a Igreja, quer para o Israel restaurado numa época ainda por vir. Contudo, a formação da Igreja esperou ainda dois outros acontecimentos de grande importância. O Cristo ressurreto devia ascender como Homem à glória dos céus, e o Espírito Santo - uma pessoa divina - devia descer à terra. O Homem (Cristo Jesus) na glória e o Espírito Santo habitando na terra são os dois grandes fatos característicos da era cristã. Não ocorreram em épocas passadas nem caracterizarão os períodos futuros. São estes dois fatos que determinam todo o caráter da época presente.
No primeiro capítulo de Atos, vemos o cumprimento do primeiro grande acontecimento. Os discípulos receberam as últimas orientações do Senhor ressurreto, e "foi Jesus elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos" (v. 9). Cristo - como Homem - foi recebido na glória. É claro que, falando desse modo, nunca devemos nos esquecer de que Ele é uma pessoa divina "sobre todos, Deus bendito para todo o sempre" (Romanos 9:5). Ainda assim, foi na condição de Homem que Ele ascendeu aos céus, foi como o Filho do Homem que o mártir Estêvão o viu no céu.
No segundo capítulo de Atos, temos o cumprimento do segundo grande acontecimento. O Espírito Santo foi recebido na terra segundo a palavra de João 7:39, que associa a vinda do Espírito com a glorificação de Cristo. Os discípulos "estavam todos reunidos no mesmo lugar"
"I (João 7: 1) esperando, segundo a palavra do Senhor, o batismo do Espírito Santo. Enquanto esperavam, o Espírito Santo desceu "do céu" e "encheu toda a casa onde estavam assentados" (João 7 :2). E não só isso, mas cada um ficou cheio do Espírito Santo. Desse modo, por um Espírito eles todos foram "batizados em um corpo"(1 Coríntios 12: 13). É a partir dessa ocasião que esse "um corpo" veio a ser um fato real: o corpo do qual Cristo é a Cabeça no céu, e os crentes, os membros na terra. Ainda assim, o fato ainda não tinha sido revelado, e dificilmente poderia, visto que o corpo é composto de crentes judeus e gentios. A revelação dessa verdade não seria dada até que os crentes gentios tivessem sido batizados no corpo pelo Espírito Santo (veja Atos 10 e 11:16).
Em seguida ao batismo do Espírito, um grande número de judeus e prosélitos aceitaram a palavra dos apóstolos, creram em Cristo, foram batizados, receberam o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo. Ademais, lemos: "Havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas" (v. 41). Depois o último versículo do capítulo nos· informa quem os acrescentou e a que foram acrescentados. Era o próprio Senhor que os acrescentava, e era à Igreja que eram acrescentados. Pela primeira vez, é-nos permitido observar o Senhor formando a Sua Igreja conforme o Seu próprio anúncio profético em Mateus 16:
"Edificarei a minha igreja". As últimas palavras do segundo capítulo de Atos (v. 47): "os que iam sendo salvos" , não implicam que esses tais eram descrentes ou que foram acrescentados a fim de ser salvos. A nação, por ter rejeitado a Cristo, ia ser julgada, mas os que creram e foram batizados seriam salvos do juízo, e tais o Senhor acrescentava à Igreja. Eles eram acrescentados ao Senhor antes de serem acrescentados à Igreja. É de grande importância insistir nisto, porque o catolicismo romano e os que seguem o catolicismo associam a salvação ao fato de pertencer à Igreja, em vez de conceberem a Igreja como a assembléia dos salvos. Somente os crentes do começo do capítulo foram introduzidos à Igreja mediante o batismo do Espírito Santo, e somente os crentes do final do capítulo foram acrescentados à Igreja pelo Senhor.
Aqui, portanto, a Igreja é vista existindo de fato. "Todos os que creram estavam juntos" (v. 44). Vemos nisso o cumprimento da profecia de Caifás concernente a Cristo, quando aquele mencionou que Este devia "reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos" (João 11:52). Costuma-se dizer, e com razão, que "havia, realmente, filhos de Deus antes desse momento, mas estavam dispersos, isolados. Cristo mediante Sua morte ia reuni-los, não apenas para salvá-los, para que estivessem juntos no céu (visto que eram filhos de Deus, isto já tinha sido feito), mas ia reuni-los em um só corpo". Isto,· sim, foi algo completamente novo sobre a terra. Não era fato novo que houvesse filhos de Deus sobre a terra. Nem era novidade que esses seguiam viagem rumo ao céu. Já era assim nos dias de Enoque e Jó, e nos dias antigos, embora fosse fato pouco conhecido. Mas que os filhos de Deus deviam ser reunidos em um só corpo era coisa completamente nova. E esta é a verdade que o povo de Deus é tão tardio em compreender. Contemplamo-nos como santos, só que isoladamente, como se vivêssemos antes da cruz. Uma vez salvos, somos propensos a considerar que agora cabe a nós escolher, de acordo com a nossa melhor habilidade, a qual "igreja" devemos nos associar, ou se afinal devemos nos associar a alguma. Porém, nesse pensamento, deixamos de reconhecer que, se já fomos ao Senhor, Ele já nos inseriu na Igreja, de modo que já não podemos mais cogitar permanecer isolados, por um lado, ou, por outro, nos associar a alguma "igreja" de nossa escolha. A própria idéia de associar-se a "uma" igreja revela ignorância acerca da verdade "da" Igreja.
Além disso, os santos não somente estavam sendo reunidos em um só corpo, mas estavam sendo unidos entre si. Deus faz ampla provisão para que eles permaneçam juntos numa unidade visível. Vejamos:
Em primeiro lugar, temos os ensinamentos dos apóstolos, por meio dos quais os santos foram conduzidos a toda a verdade de Deus. Aqui eles têm a instrução relativa à mente de Deus no que diz respeito à caminhada dos crentes na terra. Essa instrução, dada a princípio oralmente, foi mais tarde assegurada aos santos de todos os tempos mediante as Epístolas inspiradas.
Segundo, fluindo dos ensinamentos dos apóstolos, temos a comunhão dos apóstolos. Esta, como já sabemos, é a comunhão para a qual todos os cristãos são chamados -a comunhão do Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor. O Filho de Deus é o centro e o objeto desta comunhão.
Terceiro, a comunhão dos apóstolos conduz ao partir do pão, a expressão formal e mais elevada da comunhão. O partir do pão evoca a lembrança da morte de Cristo, mediante a qual os filhos de Deus foram completamente separados do mundo e agrupados numa unidade.
Por último, desejo enumerar a oração como provisão divina para que os santos permaneçam em unidade. É mediante a oração que nós, os santos, nos mantemos na atitude de dependência de Deus. E reconhecemos que Sua graça está disponível para nós e que precisamos constantemente nos achegar "confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro disseram: "Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir". Eles estavam olhando para o céu, para onde Cristo tinha ido, e os anjos redirecionaram o olhar deles para a terra, aonde Ele voltará. A primeira vista podemos nos admirar disso. Não era certo olhar para o céu, onde Cristo está? Sim, no devido tempo isso seria certo, mas o momento de elevar os olhares ainda não havia chegado. E, se atentarmos para a pregação de Pedro à nação, podemos entender por que os pensamentos dos discípulos deviam divagar por algum tempo sobre a terra. Pedro diz à nação culpada: "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado" (Atos 3: 19-20). Esta ainda era a última mensagem da graça dirigida à nação culpada, proclamada pelo Espírito Santo, enviado pelo Cristo ascendido. Caso se arrependam, Cristo voltará à terra. Mas a resposta do último apelo é a rejeição total desse testemunho do Espírito Santo. Eles foram os traidores e assassinos de seu próprio Messias. Ao Espírito Santo (por não ter corpo físico) não puderam assassinar, mas podem matar um homem cheio do Espírito Santo, e isso fizeram, apedrejando sua testemunha:
Estêvão.
A rejeição dessa última oferta da graça pela nação ocasiona completa mudança na dispensação. A partir desse acontecimento a nação é posto -;.; de lado, e o centro de todos os tratos divinos passa da terra para o céu. Em harmonia com essa mudança, Estêvão, cheio do Espírito Santo, fita os olhos no céu, e não mais se vê nenhum anjo a seu lado para indagar por que olha para o céu. Chegara o tempo de Deus para que Seu povo tirasse os olhos da terra e passasse a olhar para o céu. E Estêvão não apenas olha para cima, mas também seu feliz espírito é recebido no alto. O primeiro de uma longa série de mártires é recebido no céu. Agora o povo de Deus já não mais pertence à terra, lugar onde Cristo fora rejeitado, mas ao céu, onde Cristo fora recebido. O céu é o seu lar, e Cristo está ali para recebê-los. Se o mundo não aceita o Senhor Jesus Cristo, então este não é o lugar para o Seu povo. Se o céu recebeu a Cristo, então um novo lugar se abre para Seu povo, e neste novo lugar Ele os recebe.
O sétimo capítulo de Atos é um importante e decisivo momento nos caminhos de Deus. A partir do momento que o testemunho de Estêvão é rejeitado, a grande característica da dispensação fica evidente. Já na cena final deste capítulo, tudo passa a corresponder ao verdadeiro caráter da dispensação cristã. A nação culpada de Israel é vista em absoluta rejeição de Cristo e na inveterada resistência ao Espírito Santo. O mundo é visto no seu verdadeiro caráter de rejeição a Cristo e de perseguidor de Seus santos. O céu se abre para revelar Cristo na glória, pronto para receber os santos. Cristo é visto como o Homem na glória que sustenta Seus santos quando provados na terra e os recebe no céu tão logo vierem a dormir. O Espírito Santo é visto como pessoa divina na terra, sua atuação é preencher um homem na terra e conduzi-Io a olhar fixamente para Cristo no céu. Por último, um dos santos, cheio do Espírito Santo, é apresentado como um homem na terra que obtém todos os seus recursos do Homem na glória. O resultado é que ele é transformado na semelhança dEle, de glória em glória, de tal modo que, como seu Mestre, ora por seus assassinos e encomenda seu próprio espírito ao Senhor. Da mesma maneira que um homem na terra é sustentado pelo Homem na glória, o Homem na glória é representado por um homem na terra. Tendo lutado o combate e concluído sua carreira, o feliz espírito de Estêvão parte para ficar com Cristo, enquanto seu pobre corpo golpeado dorme para esperar a gloriosa ressurreição.
Desde o apedrejamento de Estêvão, o mundo permanece fiel a seu caráter. Rejeitou a Cristo naquela época; perseguiu os santos daquela época. E assim tem feito desde então em diferentes medidas e graus. O mundo pode até ser religioso era naquela época e é agora também -, mas a religião não faz mudar seu caráter. De fato, quanto mais o mundo professa religião, mais intensifica seu ódio e mais implacavelmente persegue os santos. Deixemos a história testemunhar sua constante hostilidade a Cristo e Seu povo. O céu também não mudou sua atitude para com o povo de Deus. Estava aberto naquela época, ainda está aberto hoje. E através dessa porta aberta (1) ainda podemos contemplar a glória de onde Cristo está, e (2) o amor de Cristo continua fluindo sobre Seus santos. De igual forma não há mudança em Cristo. Podemos olhar para o céu e dizer: "Tu, porém, permaneces" e "Tu, porém, és o mesmo" (Hebreus 1:11-12). Toda a graça, o poder e a sabedoria do Homem na glória continuam disponíveis para o sustento e amparo de Seu povo hoje assim como estiveram quando Estêvão foi tão abençoado e sustentado no seu martírio. Também não há mudança no Espírito Santo. Ele veio de Cristo na glória para nos conduzir a Cristo na glória. E este continua sendo o caminho que Ele toma. Todavia, como os crentes mudaram! Quão pouco permanecemos coerentes com o nosso caráter de santos. Quanto temos entristecido o Espírito! Por isso, em lugar de fixarmos os olhos no céu, olhamos para a terra. Tomamo-nos terrenos, se não mundanos. A conseqüência? Recebemos muito pouco do sustento do Senhor, e o poder do Espírito tem-se manifestado muito pouco. Temos sido representantes fracos do Homem na glória.
Porém, a despeito de todo o fracasso, o quadro de Atos 7 permanece com toda a sua excelsa beleza para recordar o nosso coração do verdadeiro caráter desta dispensação. E faz mais ainda: prepara o caminho para o ministério de Paulo com sua valiosa revelação da Igreja constituindo um só corpo com Cristo, o Cabeça ressurreto no céu.
No relato de Estêvão, aprendemos que os discípulos do Cristo ressurreto pertencem ao céu. Na narrativa da conversão de Paulo, em Atos 9, não só aprendemos que os santos pertencem ao céu, mas também que os santos na terra estão unidos a Cristo no céu. Quando Saulo seguia no caminho para Damasco, "respirando [ ... ] ameaças e morte contra os discípulos do Senhor" (Atos 9: 1), foi jogado ao chão por uma luz do céu e ouviu da glória a voz de Cristo, que lhe dizia: "Saulo, Saulo, porque me persegues?" (Atos 9:4). A voz não disse: "por que persegues a mim" nem tampouco "por que nos persegues", mas, "por que me persegues". O pronome "nos" implicaria um grupo de pessoas associadas a Cristo, o que, de fato, seria verdadeiro, mas "me" implica um grupo de pessoas em união com Cristo. União esta tão íntima que tocar nessas pessoas é o mesmo que tocar no próprio Cristo.
O martírio de Estêvão e a perseguição que se seguiu mostram o mundo em seu verdadeiro caráter de perseguidor dos santos. Na conversão de Saulo, entretanto, descobrimos outra verdade: ao perseguir os santos o mundo está perseguindo a Cristo. A Igreja é uma com Cristo no céu, e perseguir os Seus membros é perseguir ao próprio Cristo. Como se disse, esta é "a expressão mais forte de nossa união com Ele: Ele considerar o mais fraco dos membros de Seu Corpo parte de Si mesmo". Em Atos 2 e 4, os santos estavam unidos "num coração" e "numa alma" , dando uma bela demonstração de unidade. Finalmente, agora se revela a verdade mais profunda: a íntima união deles com Cristo, sua cabeça exaltada no céu, e uns com os outros, como membros de Seu Corpo na terra.
Israel, tendo crucificado o Messias, rejeitado a Cristo na glória e resistido ao Espírito Santo na terra, é completamente posto de lado durante o tempo presente. Ao passo que a Igreja, formada na terra mas destinada para a glória, torna-se a testemunha de Deus no mundo. Paulo foi o vaso escolhido para revelar, mediante ensinamentos divinos em suas epístolas, as grandes verdades que dizem respeito a Cristo e à Igreja.