“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”
Tradução de Synopsis of the Books of the Bible – John nelson Darby
EPÍSTOLA DE S. TIAGO – CAPÍTULO 2
O apóstolo entra agora no que concerne aos que faziam profissão de crerem que Jesus era o Cristo, o Senhor. Antes, no capítulo 1, tinha falado da nova natureza em relação com Deus; aqui, a profissão da fé em Cristo é colocada em presença da mesma pedra-de-toque - a realidade dos frutos produzidos por ela, em contraste com este mundo. Todos esses princípios, o valor do Nome de Jesus, a essência da lei tal como Cristo a apresentou, e a lei da liberdade, são postos em evidência para julgar; a realidade da fé professada, ou para convencer o professante de que ele não a possuía.
Duas coisas são aqui reprovadas: Em primeiro lugar, a que diz respeito à aparência das pessoas, e em segundo lugar a ausência das boas obras que devem ser a prova de sinceridade da profissão. Portanto, e em primeiro lugar, o apóstolo censura as atenções dispensadas à aparência das pessoas: Professa-se que se tem fé no Senhor Jesus, mas está-se animado do espírito do mundo! O apóstolo esclarece:
Deus escolheu os pobres, enriquecendo-os de fé e fazendo-os herdeiros do reino; isto porque os professantes os tinham desprezado. Esses ricos blasfemavam o Nome de Cristo e perseguiam os Cristãos. Em segundo lugar, Tiago refere-se ao sumário prático da lei, de que Jesus tinha falado, à lei real. Violava-se a própria lei, favorecendo os ricos. Ora, a lei não admite nenhuma infração aos seus mandamentos, porque se trata da autoridade do Legislador. É evidente que, desprezando os pobres, não se ama ao próximo como a nós mesmos. Em terceiro lugar, devemos andar como andam aqueles cuja responsabilidade é medida 'pela lei da liberdade, como aqueles que, possuindo uma natureza que gosta e ama o que é de Deus, são libertados de tudo o que Lhe é contrário, de modo que são indesculpáveis se admitem princípios que não são os do próprio Deus. Esta introdução da natureza divina leva o apóstolo a falar da misericórdia na qual o próprio Deus Se glorifica. O homem que não mostra misericórdia será o objeto do Julgamento que ele amou.
A segunda parte do capítulo liga-se a este pensamento, porque o apóstolo começa o seu discurso pelas obras, como provas da fé, falando dessa misericórdia que responde à natureza e ao caráter de Deus, dos quais o verdadeiro Cristão, como nascido de Deus, foi feito participante. A profissão de ter fé, sem esta vida, cuja existência é provada pelas obras, não pode aproveitar a ninguém. Isto é bastante claro. Eu digo: a profissão de ter fé, porque a Epístola o diz: "Se alguém dizer que tem fé" (v.14). Está aqui a chave desta parte da Epístola. Ele diz que tem fé; onde está a prova? Está "nas obras". E é desta maneira que o apóstolo as usa. Um homem diz que tem fé. Mas a fé não é uma coisa que nós possamos ver. É por isso que dizemos, e com razão: Mostra-me a tua fé. É a evidência da fé que é pedida ao homem; não é senão pelos frutos que nós podemos torná-la evidente aos homens, porque a fé em si mesma não se vê. Mas se eu produzo esses frutos, é bem certo que a raiz está em mim; de outro modo, os frutos não apareceriam. Portanto, a fé não se revela por si mesma aos outros, e não pode ser reconhecida pelos homens sem as obras; mas as obras, frutos da fé, demostram a sua existência.
O que se segue faz ver que o apóstolo fala da profissão de uma doutrina, verdadeira talvez em si mesma, de certas verdades que se confessam; porque é uma fé real que é considerada - uma certeza de conhecimento e de convicção que têm os demônios na unidade de Deus. Eles não duvidam desta unidade, mas não há nenhum vínculo entre o seu coração e Deus por meio de uma nova natureza; na verdade, estão bem longe disso! ...
O apóstolo confirma este fato apresentando o caso dos homens em quem a oposição com a natureza divina não é tão aparente. A fé, esta fé que reconhece a verdade a respeito de Cristo, sem as obras é morta; quer dizer, uma fé que não produz nenhuns frutos é morta.
Vê-se claramente (v. 16) que a fé de que o apóstolo fala é uma profissão desprovida de realidade. o verso 19 mostra que esta fé pode ser uma certeza, sem fingimento, de que a coisa que se crê é verdadeira; mas falta inteiramente a vida gerada pela Palavra de Deus, de modo a ser formada uma relação entre a alma e Deus. Porque esta vida vem da Palavra: É a fé. Sendo gerados de Deus, temos uma nova vida. Esta vida opera, quer dizer, a fé opera, segundo a relação com Deus, nas obras que dela decorrem naturalmente e que prestam testemunho à fé que as produziu.
Desde o verso 20 até ao fim do capítulo, o apóstolo apresenta novas provas da sua tese, fundadas sobre o último princípio que acabo de enunciar. Ora, essas provas não têm nada a ver com os frutos de uma natureza amável (porque as há, e que nos pertencem como criaturas), pois não vêm de uma vida que tem por origem a palavra de Deus, pela qual Ele nos gerou. Os frutos, de que fala o apóstolo, dão testemunho pelo seu próprio caráter à fé que os produziu.
Abraão ofereceu o seu filho; Raabe recebeu os mensageiros de Israel, associando-se ao povo de Deus, quando tudo era contra ele, e separando-se ela mesma do seu próprio povo pela fé. Sacrificar tudo por Deus, abandonar tudo por amor do Seu povo, ainda antes de ele ter alcançado uma simples vitória, e então quando todo o mundo estava obstinado na sua força - tais são os frutos da fé.
Um confiou em Deus, e creu, da maneira mais absoluta, contra tudo o que a natureza pode oferecer, contra tudo aquilo com que a natureza pode contar; a outra reconheceu o povo de Deus, quando tudo era contra ele. Mas nem uma nem outra coisa eram o fruto de uma natureza amável, nem de um sentimento natural do bem, nada daquilo que os homens chamam boas obras. Um era um pai que ia matar o seu próprio e único filho; a outra era uma má mulher, traindo o seu país. Certamente as Escrituras são cumpridas, dizendo que Abraão creu em Deus. Com efeito, como poderia ele ter agido daquela maneira, se não tivesse crido em Deus? As suas obras puseram o selo sobre a sua fé - e a fé sem obras é como o corpo sem alma, uma forma exterior privada da vida que o anima. A fé atua nas obras, porque sem ela as obras são uma nulidade; não são as da nova vida - e as obras complementam a fé que atua nelas, porque apesar da provação, e na provação, a fé está em atividade. As obras da lei não têm ali nenhuma parte; a lei exterior, que exige, não é uma vida que produz (fora desta natureza divina) essas disposições santas e amorosas que, tendo Deus e o Seu povo por objeto, estimam que nada mais tem valor.
Notar-se-á que Tiago não diz nunca que as obras nos justificam perante Deus, porque Deus pode vera fé sem as suas obras. Quando a vida existe lá, Deus o sabe. Ela exerce-se a Seu respeito, para Ele, confiando na Sua Palavra e n'Ele mesmo, recebendo o Seu testemunho através de tudo, apesar de tudo, por dentro e por fora. Esta é a fé que Deus vê e conhece. Mas desde que se trate do homem, desde que seja preciso dizer: "mostra-me", então a fé, a vida, mostram-se nas obras.