“ESTUDOS SOBRE A PALAVRA DE DEUS”
Tradução de “Synopsis of the Books of the Bible- John Nelson Darby
EPÍSTOLA DE S. TIAGO – CAPÍTULO 3
Neste capítulo, o apóstolo dedica de novo uma grande atenção à língua, como sendo o índice que revela mais rapidamente o estado do coração, e que mostra se o novo homem está em ação, se a natureza e a vontade própria estão refreadas. Mas não há quase nada neste capítulo que exija uma atenção mais cuidada, embora se encontrem nele muitas coisas que requerem uma atenção especial. Se a vida divina se encontra numa alma, o conhecimento não se evidenciará com palavras, mas sim no comportamento e por obras onde a doçura da verdadeira sabedoria se fará notar. O azedume e as querelas não são os frutos de uma sabedoria que vem de Cima, sendo antes frutos terrestres, da natureza do homem e do Inimigo.
A sabedoria que vem do Alto, tendo o seu lugar na vida, no coração, é caracterizada por três coisas: primeiramente, é pura, porque o coração está em comunhão com Deus, conversa com Deus; portanto, a pureza divina encontra-se necessariamente nela. Depois, é pacifica, doce, pronta a ceder à vontade de outrem, enfim, é plena de boas obras e movida por um princípio que tira a sua origem e os seus motivos de Cima. Pratica o bem sem parcialidade, isto é, a sua ação não é guiada pelas circunstâncias que influenciam a carne e as paixões dos homens. Pela mesma razão, ela é sincera e sem o menor fingimento. A pureza, a ausência de vontade própria e de egoísmo, a atividade na esfera do bem - tais são os caracteres da sabedoria celeste.
As direções para refrear a língua como primeiro movimento e expressão da vontade do homem natural, estendem-se aos crentes. Não deve haver entre eles, embora seja essa a disposição interior do homem, muitos doutores. Todos errados; e ensinar os outros, errando nós mesmos, não faz senão aumentar a nossa condenação. A vaidade pode alimentar-se facilmente ensinando os outros - o que é bem diferente de uma vida ativada pelo poder da verdade. O Espírito Santo distribui os Seus dons como Lhe apraz. O apóstolo viu aqui muita vaidade nos que ensinavam e não o dom recebido para ensinar.
EPÍSTOLA DE S. TIAGO – CAPÍTULO 4
Em tudo o que se segue temos ainda o julgamento da natureza não refreada, da vontade sob as suas diversas formas: Os conflitos que vêm das cobiças do coração natural, as súplicas dirigidas a Deus, provindo da mesma fonte, e os desejos da carne e do espírito que se desenvolvem e encontram a sua esfera na amizade do mundo, que é inimizade contra Deus. A natureza do homem ambiciona com inveja; é cheia de inveja acerca dos outros. Mas Deus dá maior graça (v.6). Existe uma força que atua contra essa natureza, se nos sentirmos contentes, felizes por sermos pequenos, humildes, de não sermos nada neste mundo. A graça e o favor de Deus estão com os que assim se sentem, porque Ele resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. A este respeito, Tiago desenvolve a ação de uma alma dirigida pelo Espírito de Deus, no meio de uma multidão incrédula e egoísta, à qual ela estava associada (v. 7 a 10), porque ele supõe que os crentes, aos quais se dirige, ainda estão em relação com a lei. Dizendo mal do nosso irmão, ao qual a lei dava um lugar diante Deus, dizemos mal da própria lei, (1) segundo a qual esse irmão tinha um tão grande valor. O Julgamento pertencia a Deus, que tinha dado a lei, e que saberia reivindicar a Sua autoridade, assim como conceder a libertação e a salvação.
Versos 13 a 16: São censurados o esquecimento de Deus e a vontade própria, e postas em evidência a falsa confiança decorrente do fato de contarmos com a nossa própria capacidade para fazermos o que queremos, e a ausência de dependência de Deus. O último verso é uma conclusão geral, fundada sobre o princípio já indicado no capítulo 3, verso 1, e sobre o que é dito a respeito da fé. O conhecimento do bem, sem a prática desse mesmo bem, faz com que a ausência da obra, que poderia ter sido feita, seja um pecado positivo. A ação do novo homem está ausente; mas a do velho homem está bem presente, porque, tendo o bem diante dos olhos e sabendo que deveríamos fazê-lo, não o fazemos; não há em nós nenhuma disposição para o praticar, não queremos fazê-lo! ...
(1) Comparar com 1 Tessalonicenses 4:8, onde o Espírito Santo toma o lugar da lei.